O tempo não pede licença. Ele chega, se senta à mesa e decide. Às vezes demora, às vezes parece esquecido, mas quando resolve agir, age com uma elegância quase insolente. É assim que me sinto agora, olhando para a SP Escola de Teatro e percebendo, com um certo espanto sereno, que ela se tornou faculdade. […]
O que a gente faz quando está vivo?
Há um certo pudor em falar de um trabalho enquanto ele ainda está nascendo. Como se nomear demais pudesse quebrar o feitiço. Tenho falado pouco de Quase Todos. Talvez porque ele ainda respire baixo, talvez porque algumas criações peçam silêncio para existir. Estamos ensaiando desde maio do ano passado, mas, na verdade, o tempo desse espetáculo […]
A vida trabalha em silêncio quando resolve fazer direito
Tenho uma notícia incrível. Dessas que coçam a língua, dilatam a pupila e fazem o corpo querer levantar da cadeira para anunciar ao mundo como quem grita bingo no meio de um velório, hahahaha. Talvez a melhor deste ano que mal começou e já resolveu me provocar. O curioso é que, lá no começo de […]
Sobre ciclos, escolas e escutas
Passei a vida inteira no teatro. Profissionalmente, quase quarenta anos. O teatro como casa, como linguagem, como modo de existir no mundo. Depois, a educação. Ou talvez ela sempre estivesse ali, disfarçada de ensaio, de sala escura, de conversa depois da apresentação. Os últimos vinte anos foram dedicados à descoberta de um território surpreendente: não […]
Carta aos estudantes da SP Escola de Teatro
Queridas e queridos estudantes, Escrevo como quem abre uma janela. Não para ensinar o vento a soprar, mas para lembrar que ele existe e que, às vezes, basta encostar o rosto para sentir que estamos vivos. É de vida que venho falar agora. Daquela que treme, que erra, que pulsa sem pedir licença. Da […]
ORELHA | Quando a dor não tem nome ou Notas sobre a indignação
Só agora consigo falar do Orelha, o cachorro. E talvez falar seja um verbo generoso demais para o que ainda é, em mim, um nó. Sei pouco dessa história. E sei por escolha. Não vi vídeos, não procurei imagens, não me deixei capturar pelos detalhes mais explícitos da crueldade. Há tempos em que a gente […]
Aracy: o que ficou
Janeiro de 2016 ainda respira em mim como uma cena que não pede licença para voltar. Eu vinha de Parelheiros quando o vi. Um cãozinho no meio da Estrada do Jaceguava. O corpo miúdo atravessado pela pressa do mundo, muito sangue, a vida ainda ali, insistindo, mesmo em agonia. Parei. Há momentos em que a […]
Mamãe faz 100 anos
Ah, o tempo. Esse carrasco paciente que não grita, não corre, não se anuncia. Apenas atravessa. Passa pelas coisas, pelas pessoas, pelos projetos, pelas promessas. O tempo não negocia: opera. E, no entanto, é dele que brotam a vida, o amor, os vínculos, essas histórias que permanecem mesmo quando tudo parece ter se dissipado. O […]
Ribeirão Claro, em letras garrafais
Ribeirão Claro voltou a existir fora do mapa afetivo e entrou, de novo, no mapa duro da política nacional. Na edição da Folha de S.Paulo de hoje está ela, minha cidade natal, em letras grandes demais para caber no silêncio das manhãs do interior: “Justiça pagou seguranças em cidade de resort frequentado por Toffoli.” A […]
PATERNIDADE | Livro novo chegando
“O Que Fica Quando Tudo Passa – Anotações de um pantopolista paulistano” ainda é um título provisório do meu novo livro de crônicas, o terceiro da minha história. O primeiro, “Terras de Cabral – Crônicas de Lá e Cá”, publicado em 2013, nasceu de um desejo quase juvenil de organizar o mundo pela escrita: juntar memórias, deslocamentos, […]
