ARTAUD E A CRUELDADE

Tudo o que há no amor, no crime, na guerra ou na loucura nos deve ser devolvido pelo teatro, se ele pretende reencontrar sua necessidade.

É muito comum associarmos a palavra “crueldade” à obra de Artaud. Esse termo pode ser referido ao próprio deus Dioniso, como veremos posteriormente em Berthold. O cruel artaudiano é pré-Eurípides. Num tempo mitológico, quando as medidas apolíneas ainda não sufocavam a arte trágica, Dioniso encarnava-se nos protagonistas da tragédia grega.

A crueldade artaudiana inspira-se, portanto, num “Prometeu (que) teve que ser dilacerado pelos abutres; por causa de sua desmesurada sabedoria, que solucionou o enigma da Esfinge, Édipo teve que precipitar-se em um enredante turbilhão de crimes”.[1]

Artaud, quando usa o termo “crueldade”, fala, portanto, da crueldade metafísica. O teatro da crueldade a que se referiu é uma maneira de fazer uma crítica sobre a cultura do espetáculo.

Segundo Virmaux, ele só realizou o teatro da crueldade uma única vez: em uma conferência, a “Frente a frente” (1947), sua primeira aparição pública depois de sete anos internado. Nessa conferência estavam presentes: Neruda, Bataille, Gide e Sartre.

Artaud vai dizer que o teatro não se confina num palco, mas que pode se realizar em uma fábrica ou em uma conferência, por exemplo, e que pode se metamorfosear em qualquer situação.

Perdeu-se uma ideia do teatro. E, na medida em que o teatro se limita a nos fazer penetrar na intimidade de alguns fantoches e em que transforma o público em voyer, compreende-se que a elite se afaste dele e que o grosso da massa procure no cinema, no music hall ou no circo satisfações violentas, cujo teor não a decepciona.[2]

Trata-se de reelaborar o pensamento e quebrar uma linguagem formal. Normalmente o discurso está sempre armado e falta a confrontação com o interno, onde o pensamento titubeia. Há uma crueldade nesse pensamento, na confrontação com o nascimento da linguagem.

Tudo o que age é uma crueldade. É a partir dessa ideia de ação levada ao extremo que o teatro deve se renovar.[3]

A crueldade pode nascer de uma atitude interior e de uma experiência também ligada ao interno. E é isso que vai transformar o que Artaud chama de vida. Uma atitude de desarmamento, uma maneira de se lançar ao desconhecido.

Pela maneira de se lançar ao desconhecido, Artaud vai negar a ideia de cultura enquanto produção de consumo. Para ele, a cultura é uma questão social mais urgente. Assim, o artista fala a partir da dor de existir. Uma dor de fundo, esse é o impulso metafísico.

A crueldade também está ligada à interrupção: com o automatizado, com o discurso pronto. O interromper para abrir-se para outro espaço. Mas antes do analisar, do racionalizar. Assim, a crueldade de Artaud se liga contra a cultura analgésica.

Se pensarmos que o processo criativo aproxima-se sempre da angústia, e que, portanto, a criação está sempre ligada ao desconhecido, é fácil supor que existe uma cultura das sensações – do imaginário, do sensível –, não da cultura erudita. Dessa forma, Artaud propõe um teatro que vai do sensorial ao intuitivo – não físico, apenas.

Para Artaud, é o teatro que propõe outra forma de desenvolver o intelecto. Mas esse intelecto é no sentido de aprofundar a percepção das coisas. Como já dissemos, Artaud é inimigo do sistema do racionalismo.

Tudo o que há no amor, no crime, na guerra ou na loucura nos deve ser devolvido pelo teatro, se ele pretende reencontrar sua necessidade.[4]

Para a recuperação dessa “necessidade”, Artaud irá propor um teatro ritualístico. Porque, segundo ele, é “a partir dessa ideia de ação levada ao extremo que o teatro deve se renovar”.[5]

O ritual está ligado à existência e aproxima-se do teatro porque trabalha com o espaço circunscrito, com a dança, na relação com o outro.

É para apanhar a sensibilidade do espectador por todos os lados que preconizamos um espetáculo giratório que, em vez de fazer da cena e da sala dois mundos fechados, sem comunicação possível, difunda seus lampejos visuais e sonoros sobre toda a massa dos espectadores.[6]

Mas nesse rito artaudiano é necessária a ideia da crueldade como rigor. Porque espontaneidade e rigor são o mote do trabalho de Artaud. Grotowski irá dizer que essa foi a maior contribuição do mestre francês para o teatro moderno. Afinal, Artaud buscava sempre a eficácia da ação porque, segundo ele, o teatro é sempre uma forma de ação.

Mas crueldade também é determinação, mobilização total, ação que provém de uma necessidade absoluta. É também uma ação inteira que mobiliza corpo e afeto – o “ato total”, segundo a obra de Grotowski.

O grande tema do teatro artaudiano é a negação da repetição. Desde seus primeiros escritos ele se coloca contra a repetição. Para ele, o singular é o mais importante. E o estar agora – o instante – é que fará sempre a diferença.

Afinal, a crueldade também pode potencializar a singularidade – a questão do instante – porque ela está sempre acontecendo. Um estado de percepção que está ligado ao soltar-se, ao não se prender àquele momento que já se transforma em passado.


[1] Friedrich Nietzsche, O nascimento da tragédia, op. cit., p. 41.
[2] Antonin Artaud, O teatro e seu duplo, São Paulo, Martins Fontes, 1999, p. 95.
[3] Idem, p. 96.
[4] Idem, ibidem.
[5] Idem, ibidem.
[6] Idem, p. 97.

O DIA DAS MÃES

– Aqui é o final da fila?

– Aqui mesmo.

– Nossa, pelo visto vai demorar, né?

– Você está com sorte, começou a andar rápido agora.

– O dia tá corrido hoje. Viajo na segunda.

– Viajar é bom.

– No meu caso, não. Tô fazendo um negócio que tinha prometido pra mim mesma que nunca faria.

– Vai voltar pra casa da sua mãe?

– Nossa, como você adivinhou? É bruxo, você?

– A verdade é que voltar pra casa da minha mãe sempre o foi o meu desespero. Enquanto a minha mãe vivia.

– Morreu a sua mãe, é?

– Infelizmente, sim.

– Nossa, eu nem sei o que aconteceria se eu perdesse a minha.

– É, a gente nunca sabe.

– E a minha mãe, ah, se você pudesse conhecer a minha mãe.

– Digo o mesmo da minha. Se você pudesse ter conhecido a minha.

– Então me conte uma coisa da sua mãe.

– Tenho saudade de sua lasanha. A mais gostosa do mundo. Me conte agora algo da sua.

– Eu era solteira e fiquei grávida. Fiquei desesperada, não sabia o que fazer da minha vida. E fui guardando o maior segredo do mundo, enquanto ia escondendo a minha barriga. Quando, enfim, resolvi falar com a minha mãe, no sexto mês de gravidez, estava morrendo de medo. Lembro como se fosse hoje. Era um domingo, fazia calor. Minha mãe estava sentada na varanda e eu fui ter com ela. Eu suava muito, nossa, como suava. Quando comecei a falar, tentando ser delicada, temerosa que ela tivesse uma reação violenta… De repente, e antes que eu contasse à ela o que tinha pra dizer, ela tirou uma chave que estava guardada entre os seus seios e entregou a mim. Peguei a chave sem entender nada. Então ela me disse pra ir até a penteadeira, em seu quarto. Perdi a voz. Depois de um tempo, fui caminhando até seu quarto. Aquele trajeto, ali, demorou tanto, mas tanto. Quando cheguei em seu quarto, minhas mãos pareciam que iam saltar do meu corpo, tamanha tremedeira. Fiquei parada em frente sua penteadeira por um tempo. Quando, enfim, comecei a abrir a gaveta, percebi que minha mãe estava me olhando, escorada na porta de entrada do quarto. A gaveta veio colorida, iluminada. Lá dentro, muitas roupinhas de bebê. Sapatinhos, babador, touquinha.

(Silêncio)

– Nossa, ela sempre soube da sua gravidez, então?

– Sempre. E em siêncio. Nunca mais voltamos a falar sobre isso. E meu filho nasceu, ela foi a avó mais doce do mundo e na semana passada meu menino se formou. É advogado agora.

– Que história linda! E você, se casou depois?

– Não me casei, não. O pai dele nunca assumiu. Vim com meu filho pra São Paulo faz quase 20 anos. E durante todo esse tempo, minha mãe mandou dinheiro pra nós. Dinheiro da sua aposentadoria. Todo mês.

– Que bonita a sua história.

– Agora meu filho não precisa mais de mim e estou voltando. Não queria voltar mas acho que a vida dele é só dele. Vou cuidar da minha mãe.

– Chegou a minha vez, até. Foi um prazer.

– Veja só, você nem me falou da lasanha da sua mãe.

– Não deu tempo, a fila andou rápido.

– Vai com Deus.

– Fica com Deus.

CHRIS, A MENINA LINDA DOS OLHOS MAIS LINDOS

Eu e a Chris tivemos, embora breve, uma relação bastante intensa. Antes de conhecê-la pessoalmente, criamos na Internet uma história, digamos assim, conturbada.  Primeiro foram as trocas de e-mails, depois através do Twitter e, por fim, no Facebook. Fomos nos conhecer pessoalmente há pouco tempo – dois anos, no máximo. Mas, quando nos encontramos, já tínhamos desenvolvido uma intimidade curiosa. Com brigas, inclusive.

A primeira mensagem da Chris veio há algum tempo, em 2005. Ela queria conhecer o texto de “A Vida na Praça Roosevelt”, de Dea Loher, que  estávamos montando. Isso ocorreu antes da estreia da peça, que aconteceu em agosto daquele ano. Depois disso, fomos ficando próximos. Quando a Chris entrou no Twitter, começou a me seguir e foi aí que a gente se estranhou.

Mas foi bonita também a maneira que isso aconteceu. Depois de ter me dado um unfollow, escreveu um longo e-mail me explicando suas razões. E antes de acertamos os ponteiros, porém, brigamos mais um pouco, sempre através de mensagens. A paz foi selada quando ela voltou a me seguir no Twitter.

Há uns meses, no entanto, ficamos muito próximos. Primeiro quando começamos a discutir o papel do dramaturgista na cena brasileira. Não sei por que, há uma inversão nas funções da categoria, aqui no Brasil.

O que é bem claro no teatro alemão – onde surgiu a função “dramaturg”, com Lessing, no século XVIII – acaba se confundindo aqui no nosso teatro. Assim, o dramaturgista, profissional responsável pela pesquisa e, segundo Patrice Pavis, “o conselheiro literário e teatral agregado a uma companhia teatral”, aqui é tomado por “dramaturgo em processo”, aquele que é convidado por um grupo para organizar a dramaturgia de um espetáculo.

Eu e Chris falamos muito sobre isso. E ela me ensinava: “enquanto o dramaturgo compõe o drama, o dramaturgista o auxilia na organização de seus caminhos, através de pesquisas”.

Sua voz era de respeito. Afinal, Chris tinha formação em dramaturgia na Yale University/Yale School of Drama e estava, neste momento, fazendo pós-doutoramento na ECA/USP.

Mas o lindo da Chris era sua generosidade. Quando soube, em março, que estávamos organizando aqui, no portal da SP Escola de Teatro, uma série de homenagens a grandes nomes do teatro brasileiro, prontamente se ofereceu para escrever seu depoimento para a Maria Luisa Mendonça, sua amiga de anos. Ficou tão, mas tão entusiasmada com a ação que se propôs a escrever sobre mais duas pessoas: Cleide Yáconis e Walderez de Barros.

Mas não deu tempo. Chris se foi numa sexta-feira de sol. Um dia lindo, esplendoroso – veja só que ironia. Apesar de sabermos de sua doença, sempre pensamos que a menina linda dos olhos mais lindos venceria a armadilha do destino. Mas destino é destino e sempre tão incerto…

Ontem, falando com o Pedro, um de seus sobrinhos, descobri algo que me emocionou demais. Ele me contou, vejam só, que a Chris, no hospital, havia falado para a irmã dela que era para eu cuidar de seu legado dramatúrgico. Agora, há pouco, recebo um e-mail do Pedro que me revela ter encontrado no apartamento da Chris um bilhete:

Toda minha biblioteca (livros de dramaturgia/teatro)
Doada para a SP Escola Teatro aos cuidados do Ivam Cabral

O mais louco desta história. Na sexta, quando pensamos nesta homenagem, nem sequer imaginávamos que o destino da Chris e da SP Escola de Teatro estava tão ligado.

Vai com Deus, Chris. E com a certeza de que estaremos cuidando de seu legado.

CHRISTIANE RIERA – DEIXOU SUA MARCA NO TEATRO E NO CINEMA

A dramaturgista e crítica Christiane Riera morreu ontem, aos 44 anos, em São Paulo, em decorrência de um câncer, contra o qual lutava desde junho de 2011.

Riera fazia pós-doutorado na ECA-USP, estudando modos de avaliação de roteiros cinematográficos, sob supervisão de Esther Hamburger.

Fez mestrado e doutorado em dramaturgia e crítica dramática pela Universidade Yale. Trabalhou por três anos como consultora para o Yale Repertory Theater e foi crítica colaboradora do jornal “The Village Voice”, além de consultora do The New York Theater Workshop.

Riera também influenciou a produção cultural brasileira. Foi crítica de teatro da Folha entre 2010 e 2011. No cinema, atuou como consultora de roteiros para a produtora Gullane Filmes e coordenou o departamento de desenvolvimento de projetos da produtora O2.

Orientou os roteiros de “O Jardineiro Fiel”, dirigido por Fernando Meirelles, “Xingu” e “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, ambos dirigidos por Cao Hamburguer.

Trabalhou ao lado de outros nomes do cinema brasileiro, como Laís Bodanzky, Karim Aïnouz, Heitor Dhalia e Carlos Cortez.

Sua carreira foi singular ao mesclar conhecimento acadêmico e de realização, assim como teatro e cinema. “Foi uma pessoa com qualificações muito raras e contagiava a todos com seu entusiasmo”, diz Esther Hamburger.

Nesse trânsito constante entre estudos acadêmicos e práticos, teatro e cinema, desenvolveu função até então inédita no país, a de dramaturgista.

“A Chris inventou essa profissão para ela. Ela ajudava os artistas envolvidos num filme a entenderem o texto, descobrirem entrelinhas. Deixou sua marca ao nos fazer buscar compreender desde a essência de um filme até a obra total. Nunca vi essa função no cinema daqui ou no lá de fora”, diz Cao Hamburguer.

No teatro, entre outros trabalhos, traduziu e produziu ao lado de Célia Forte e Maria Luísa Mendonça o espetáculo “Essa Nossa Juventude”, do dramaturgo americano Kenneth Lonergan, que obteve duas indicações para o Prêmio Shell em 2006.

Como crítica, Riera também deixou um legado. “Além de erudição, ela tinha um olhar generoso que não é comum na crítica”, recorda o autor e ator Ivam Cabral.

Christiane Riera deixa um filho, João, fruto do casamento com o roteirista e dramaturgo Bráulio Mantovani.

Seu corpo seria cremado hoje, às 13h, no Horto da Paz.

Fonte: Folha de S. Paulo, 12 de maio de 2012

MINHA ADORÁVEL BLANCHE

Não se preocupe. Com o telefone ligado o resto se ajeita (foto: “Preto e Branco”, de Man Ray)

– Ué, você, em casa?

– A Fil não parou de miar. Tá me dando muito trabalho.

– Tá todo mundo te esperando…

– Você tem velas pra me emprestar?

– Velas?

– Continuo sem luz.

– Ainda não ligaram a luz?

– Com o dinheiro que você me deu eu paguei a conta do telefone.

– E ficou sem luz?

– O telefone é mais importante.

– Mas como você pode viver sem luz?

– É, estragou tudo que estava na geladeira. Tive que jogar um frango inteirinho no lixo. Já tava cheirando mal.

– Você tem o que comer?

– Ainda tenho um macarrão que dá pra hoje.

– E amanhã?

– Logo se vê.

– Mas você não pode viver assim. Posso te dar mais um dinheiro, então. Quanto você precisa?

– Se você me arrumar 100 reais acho que dá.

– Tudo bem, 100 reais eu posso. Paga a conta da luz e compra alguma coisa no supermercado?

– Espera, bicho. Não é assim. É que tem outra conta de telefone que preciso pagar.

– Mas e a luz? Você não pode viver desse jeito. E precisa comer também.

– Eu sei, filho, eu sei. Mas prefiro ter o telefone ligado. Deixei meus contatos em vários lugares. Se me desligarem o telefone eu perco o contato com o mundo.

– Meu amor, mas eu não posso te dar mais dinheiro.

– Não se preocupe. Com o telefone ligado o resto se ajeita.

– Então você não vem agora?

– Às quatro eu passo aí.

– Tudo bem, eu te espero. Um beijo.

– Outro.

AUTOESTIMA

Reparei nos seus dentes, branquíssimos. Pensei no meu cabelo, ressecado. Nos meus óculos, chinfrim. Nos meus dentes, amarelados.

Marinete é amiga de um amigo meu. Quarentona, filha de nordestinos e osasquense de nascimento, trabalha numa repartição pública. Seu sonho, há muito, é encontrar um amor. Perdeu a virgindade aos 32 anos com um michê, presente de aniversário desse meu amigo, amigo dela.

Nette, como gosta de ser chamada – e com dois “t” como faz questão de grafar – é feia. Muito feia mesmo. É motivo de chacota nas rodas de amigos, quando não está por perto.   Apesar de andar sempre com esse meu amigo e fazer parte do círculo de relacionamentos dele, Nette é muito solitária. Parece viver num mundo completamente à parte.

Esse meu amigo é descolado. Publicitário e ator nas horas vagas, circula por um meio requintado. Fã incondicional de P. J. Harvey, leu “Mrs. Dalloway” duas vezes e não perde um filme de Lars Von Trier.

Nette, apesar de nunca ter lido Virginia Wolf, também viu os filmes do Trier e é obrigada a ouvir P.J. Harvey. Mas seu coração bate mesmo pelo cantor Daniel e não perde um capítulo da novela das nove, mesmo quando o assiste muito tarde da noite, gravado pelo seu velho videocassete, depois de uma balada qualquer.

Eu gosto muito da Nette. Quando morava em Lisboa, tive o prazer de recebê-la, numa ocasião. Fora se encontrar com um portuga que conhecera através do mágico bate-papo do UOL.

Nette não foi feliz em Portugal. O rapaz desapareceu depois do primeiro encontro terminado numa pensão barata do Bairro Alto.

Fazia muito tempo que eu não via a Nette. Coincidentemente, encontrei-me duas vezes com ela esta semana. Na primeira, estava com este meu amigo na pré-estreia de “Luz nas Trevas”, o filme da Helena Ignez. Agora há pouco, nos esbarramos na avenida Paulista.

Eu estava atravessando a faixa de pedestres quando a Nette surgiu, assim do nada. Estava radiante; eu, triste. Olhei para os seus enormes óculos espelhados, lindos. Depois para os seus cabelos, tratados. Reparei nos seus dentes, branquíssimos. Pensei no meu cabelo, ressecado. Nos meus óculos, chinfrim. Nos meus dentes, amarelados.

Apressado, havia acabado de sair da livraria Cultura, onde tinha ido buscar uma encomenda. Ela vinha do caixa eletrônico do Banco do Brasil.

Não consegui falar direito com ela. E fiquei encabulado, tímido mesmo. Me sentindo o último e o pior dos mortais. Por um momento tive vontade de pedir desculpas a ela. Talvez por causa das chacotas que fazem dela; talvez porque eu tenha rido quando me contaram, às gargalhadas, da história de como ela perdeu sua virgindade.

Saí em disparada. Então, depois de um tempo a ficha caiu. A Nette continuava muito, mas muito feia. E eu constatei: sim, tudo é uma questão de autoestima.

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MINHA OPINIÃO – “AS COISAS”, O CONSUMISMO COMO PERSONAGEM CENTRAL

O livro fala da sociedade de consumo, sobretudo, a partir de uma visão marxista

“As Coisas – Uma História dos Anos Sessenta” é o romance de estreia de Georges Perec (1936- 1982). Escrito em 1965 – e só agora publicado no Brasil –, conta a história de um jovem casal, os inteligentes e ambiciosos Jérôme e Sylvie, loucos pelo consumismo, a grande personagem da obra.

Embora – e indiscutivelmente – relevante, este “As Coisas”, de Perec, me parece um tanto datado. A grande questão dos protagonistas – que transitam entre o desejo de uma vida não convencional e a necessidade de ganhar dinheiro –, soa, nos dias de hoje, um tanto vazia. Talvez porque o que poderia causar estranheza na época em que foi escrito – e embora ainda não superado – não nos surpreende (ou aterroriza) mais como se poderia supor.

“As Coisas” fala da sociedade de consumo, sobretudo, a partir de uma visão marxista. O que nos anos 1960 era um projeto, em tempos de Apple e compras virtuais tornou-se motor. Assim, questões colocadas há 50 anos – e que, à época eram assustadoras – hoje fazem parte do nosso cotidiano. O desejo estudado como utopia tornou-se, literalmente, sua tradução.

Desta forma, parece um tanto água com açúcar, o conflito de nossos protagonistas que, depois de um tempo vivendo em uma grande cidade, optam por uma temporada nas colônias africanas em busca de tranquilidade e qualidade de vida para, em seguida, retornar, fatigados, ao mesmo lugar.

“AS COISAS: UMA HISTÓRIA DOS ANOS SESSENTA”, DE  GEORGES PEREC
Companhia das Letras

MINHA OPINIÃO – “FESTA NO COVIL”, UMA OBRA ATERRADORA

Poder, perda da inocência e contradições sociais, sobretudo

Yolcaut é um homem muito rico que realiza todos os desejos de seu filho, Totchli. Este é o ponto de partida de “Festa no Covil”, do mexicano Juan Pablo Villalobos, narrado em primeira pessoa pelo “precoce” Totchli, que vive isolado em uma mansão.

Tudo parece absolutamente perfeito naquele mundo cor-de-rosa; Totchli tem tudo o que quer, muito mais do que precisa. Porém, à medida que vamos descortinando o dia a dia do garoto, seu mundo começa a ficar sombrio e extremamente triste.

Logo no início do livro, ficamos sabendo que o pequeno Totchli, que pertence ao “melhor bando do universo” e dono da maior coleção de chapéus do mundo, quer porque quer um hipopótamo anão da Libéria, mas eles não são vendidos em pet shops, lojas que, no máximo, vendem cachorros.

Aos poucos, descobrimos que Totchli é filho de um poderoso traficante que o mantém enclausurado e lhe ensina muitas coisas, sobretudo o ódio aos americanos e a lealdade ao crime.

Sob o ponto de vista infantil, Villalobos constrói uma obra aterradora que fala sobre poder, perda da inocência e contradições sociais, sobretudo. Obrigatória!

“FESTA NO COVIL”, DE JUAN PABLO VILLALOBOS
Companhia das Letras

AS FOTOS DA SEMANA

Na primeira foto, Ivam Cabral; na segunda, Ivam Cabral e Vanessa Goulart em “Luz nas Trevas”, filme de Helena Ignez, que entra em cartaz na sexta-feira (foto: Fabio Delduque)

MINHA OPINIÃO – EM “HINOS TARDIOS”, HÖLDERLIN CELEBRA A NATUREZA, A CULTURA GERMÂNICA E A GRÉCIA ANTIGA

Obcecado pela cultura grega, Hölderlin sempre se mostrou aficcionado pelo hino

Hölderlin  (1770-1843), poeta e romancista – e que não foi reconhecido em vida, descoberto apenas na metade do século XIX – é considerado hoje uma das maiores vozes da literatura alemã.

Mas foi através de outro poeta de língua germânica, Rainer Maria Rilke, que cheguei até esses “Hinos Tradios”. Segundo o próprio Rilke, Hölderlin o teria inspirado em “Sonetos a Orfeu: Elegias de Duíno”, uma de suas obras mais inspiradoras.

Obcecado pela cultura grega, Hölderlin sempre se mostrou aficcionado pelo hino – gênero lírico  de cunho glorificador ou santificador. Em “Hinos Tardios”, o poeta celebra a natureza, a cultura germânica e a Grécia antiga, dentre outros temas.

TRECHO:

No ameno azul…

No ameno azul floresce, com o seu telhado de metal, o campanário. À sua volta paira a gritaria das andorinhas, rodeia-o o azul mais comovente. O sol ergue-se, alto, sobre ele, e dá cor à chapa metálica, mas é no seu cimo que, ao vento, suavemente, canta o catavento. Quando alguém então desce para o patamar do sino, por aqueles degraus, há uma vida silenciosa, pois quando a sua figura está assim tão isolada, sobressai a plasticidade do homem. As janelas em que os sinos tocam são como arcos de beleza. Pois os arcos ainda imitam a Natureza, são semelhantes às árvores da floresta. E o que é puro também é belo. No interior, da diversidade surge um espírito sério. E as imagens são tão simples, tão santas, que muitas vezes verdadeiramente se teme descrevê-las. Porém os Celestiais, que são sempre bondosos, uma vez que tudo têm, como os ricos, possuem a virtude e a alegria. O homem pode imitá-los. Mas poderá o homem, quando toda a sua vida está cheia de trabalhos, erguer o olhar e dizer: assim quero eu ser também? Sim. Enquanto a amabilidade pura habitar no seu coração não será uma atitude infeliz o homem medir-se pela divindade. Será Deus desconhecido? Será manifesto como o Céu? Antes isto creio. É a medida do homem. Cheio de mérito, mas poeticamente, vive o homem sobre esta Terra. E no entanto a sombra da noite e as estrelas não são, se é que posso dizê-lo, mais puras do que o homem, como imagem que é da divindade.

Haverá na Terra uma medida? Não, não há. É que os mundos do Criador jamais inibem o curso do trovão. Também uma flor é bela porque floresce sobre o sol. O olhar encontra muitas vezes ao longo da vida seres que seriam mais belos de nomear que as flores. Oh, como o sei bem! Pois agradará a Deus que a figura e o coração sangrem e que se deixe completamente de existir? Mas a alma, tal como penso, deve permanecer pura, pois assim chega ao que é poderoso sobre as asas de águias como um cântico de louvor e com a voz de muitas aves.

“HINOS TARDIOS”, DE FRIEDRICH HÖLDERLIN
Assirio & Alvim

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