Rosiane e Rafael: o que o teatro faz com a gente

No Satyros, sempre soubemos: o teatro pode não ser apenas um lugar de chegada – mas de passagem é, com certeza. Então eles chegaram. Tímidos, sem fazer muito estardalhaço. Como quase tudo que importa. Era 2005, e o Satyros fervilhava com “Cosmogonia – Experimento Nº 1”. No meio daquele organismo vivo, atravessado por corpos, ideias e urgências, apareceram Rafael e Rosiane. Vindos do CEU Aricanduva, onde estudavam teatro; trazidos por uma atriz que trabalhava com a gente e era professora deles.

Eram jovens. Bonitos de um jeito muito especial. Rafael, com seus 20 anos, trazia uma timidez quase delicada, como quem pede licença ao mundo. Rosiane, aos 19, não. Ela já havia entendido que o mundo não pede licença, ele invade. E, talvez por isso, construiu para si uma altivez que alguns poderiam estranhar, mas que eu sempre reconheci como forma de defesa.

Trabalharam conosco por um bom tempo. Mas, engraçado, há relações que não obedecem ao tempo cronológico. Duram em outra medida. Ele, na luz – e há algo de muito simbólico nisso. Ela, no administrativo, na bilheteria – esse lugar onde o teatro encontra o mundo real, onde a arte precisa negociar com a vida.

E foi ali, nesse território entre o ideal e o possível, que vi Rosiane afirmar algo que muitos de nós ainda hoje estamos tentando aprender.

Nums noite, José Serra, então prefeito da cidade, chegou para assistir ao espetáculo. Como parte da experiência, exigíamos que o público vestisse EPIs – avental, máscara, luvas, touca. Serra hesitou. Recusou.

Antes dele, Mario Bortolotto já havia feito o mesmo e, por isso, não assistiu à peça. Alguém da produção, diante da cena inusitada, cogitou ceder. Rosiane não.

“Isso é injustiça.”

Simples assim. Sem teoria. Sem manifesto. Sem necessidade de parecer inteligente. Apenas justa.

“O que vale pra um, deve valer para todos.”

E aquele instante, entre máscaras cirúrgicas e protocolos de cena, Rosiane instaurou uma ética. Não a ética discursiva, mas a ética encarnada, viva. Aquela que até pode nascer da renegociação, mas desde que valha para todos.

Serra não vestiu, Bortolotto também não. E ambos puderam assistir ao espetáculo. Sim, Bortolotto voltaria um tempo depois. E, a partir daquele dia, passou a ser do público a decisão de utilizar ou não aqueles procedimentos, embora dali em diante ninguém mais tenha se recusado a vesti-los.

Os anos passaram. Como passam.

E Rosiane seguiu. Tornou-se pedagoga. Está quase engenheira da computação. Entra agora no mundo das redes, esse território tão novo e tão antigo, onde seguimos tentando existir diante do outro. Diz que a arte atravessa tudo o que faz. E eu acredito. Porque quem aprende a sustentar uma ética na bilheteria de um teatro dificilmente desaprende isso na vida.

Rafael permaneceu na luz. Hoje trabalha em uma unidade do Sesc, aqui em São Paulo. Há quem diga que iluminação é técnica. Eu desconfio. Acho que é uma forma de cuidado. De decidir o que pode ser visto.

Nos últimos dias, troquei mensagens com Rosiane, enquanto um café vem sendo ensaiado, como tantas outras cenas que ainda não aconteceram.

Rosiane me escreve que é resistência na educação.

“Insisto na conscientização. Se ajudo uma única pessoa, já me sinto feliz.”

Reconhece o tempo que passou conosco:

“Eu sou grata demais. A arte e a educação foram a chave para minha transformação. E suas palavras me deram caminhos.”

Fico pensando no peso – e no perigo – dessas frases. Porque elas nos colocam diante de uma pergunta que nunca nos abandona: o teatro salva ou não salva vidas?

Talvez não salve como um milagre. Porque não interrompe a morte, não resolve o mundo, não impede a dor.

Mas, às vezes – e talvez isso baste –, ele muda a forma como alguém atravessa a própria vida. E isso, no fim, não é pouco.

Obrigado, Rosiane, por ter sido também um farol quando ainda era noite para todos nós. E por continuar sendo. Porque há pessoas que não apenas passam pelo teatro. Há aquelas que, como você, o prolongam no mundo.

 

+ Na foto, que retirei do seu Facebook, Rosiane. Do Rafael, não encontrei nenhuma imagem. Ele parece cultivar uma discrição rara nas redes sociais.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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