Ribeirão Claro voltou a existir fora do mapa afetivo e entrou, de novo, no mapa duro da política nacional. Na edição da Folha de S.Paulo de hoje está ela, minha cidade natal, em letras grandes demais para caber no silêncio das manhãs do interior: “Justiça pagou seguranças em cidade de resort frequentado por Toffoli.” A tal “cidade de resort” tem nome, cheiro de rio e memória de infância. É a minha.
Quando uma cidade pequena vira manchete, algo se desloca dentro dela. Penso nos meus conterrâneos. No susto, na confusão, na dificuldade de entender o que está, de fato, acontecendo. Penso também naquilo que era orgulho – a ideia de desenvolvimento, de futuro, de reconhecimento – e que, de repente, se transforma em desconfiança. Em quem acreditar depois disso? Como seguir vivendo quando o nome da cidade passa a circular acompanhado de palavras que não combinam com a calma das tardes e o ritmo das conversas na praça?
A história, contada nos jornais, fala de um empreendimento de luxo ligado, de alguma forma, ao nome do ministro Dias Toffoli. Fala também de seus irmãos – um padre, outro engenheiro — e de como esses mundos tão distintos teriam se cruzado num mesmo projeto. As perguntas surgem naturalmente, como surgem sempre que o dinheiro, o poder e a terra se encontram: de quem era o terreno? Em que condições foi vendido? Como se estruturou o negócio? O que era público, o que era privado? O que é fato comprovado e o que ainda é apuração em curso?
Há ainda o detalhe que inquieta. O empreendimento, ao que se noticia, já teria mudado de mãos, passando a outro proprietário, um advogado ligado a um grande grupo empresarial. E isso não encerra a história. Ao contrário, a prolonga. Porque, em cidades pequenas, nada termina de fato. Tudo fica em suspensão, circulando em conversas, olhares atravessados, silêncios constrangidos.
Tudo fica em suspensão, circulando em conversas, olhares atravessados, silêncios constrangidos. E então começam a chegar os repórteres. Vêm de fora, de muito longe. A Folha de S.Paulo manda alguém, a Globo também, o Metrópoles. De repente, Ribeirão Claro passa a receber equipes jornalísticas do país inteiro. Pessoas que não conhecem seus ritmos, nem seus afetos, mas que percorrem suas ruas com perguntas nas mãos. A cidade, que sempre soube quem entrava e quem saía, agora é observada, anotada, filmada. E sente.
O que mais me entristece não é apenas a possibilidade de irregularidades – isso a Justiça, espera-se, saberá esclarecer –, mas o efeito colateral dessa exposição. A insegurança que se instala. A sensação de que algo foi feito “sobre” a cidade, e não “com” ela. Como se Ribeirão Claro tivesse sido usada como cenário, e não como sujeito.
Talvez a pergunta mais importante não seja “quem errou?”, mas “o que aprendemos com isso?”. Se aprenderemos algo. Se seremos capazes de sair dessa história mais atentos, mais críticos, menos deslumbrados. O futuro dirá, como sempre. Mas torço para que diga com cuidado. E que devolva à minha cidade aquilo que ela sempre teve de mais precioso: a dignidade de existir sem precisar virar escândalo.
