Escrevi sobre uma cidade. Alguns leram um governo. Escrevi sobre uma experiência concreta. Alguns ouviram uma defesa que nunca fiz.
Talvez seja um sinal dos tempos. Qualquer tentativa de pensamento que não se alinhe imediatamente a um dos lados do ringue é recebida como suspeita. A leitura vira julgamento; a reflexão, torcida.
Não escrevi para defender o governo Jair Bolsonaro – que considero, sem rodeios, um dos períodos mais corrosivos e corruptos da nossa história republicana. Tampouco escrevi para sustentar o governo Lula. Não era disso que se tratava. E é justamente aí que a leitura escorregou.
O que estava – e está – em questão é algo mais profundo e mais incômodo: o escândalo do Banco Master e tudo o que ele revela sobre o modo como poder econômico, estruturas jurídicas, relações empresariais e zonas cinzentas da institucionalidade brasileira seguem operando. Um caso que não nasce no Executivo, não se resolve no grito ideológico e não cabe na lógica simplista do “meu lado contra o seu”.
O Banco Master expõe uma engrenagem conhecida, mas ainda pouco digerida: a fragilidade dos controles, a promiscuidade entre interesses privados e espaços de decisão, a lentidão – às vezes até conveniente – das respostas institucionais. Não é um escândalo “deste” ou “daquele” governo. É um espelho da nossa sociedade. E espelhos, sabemos, raramente agradam.
Quando escrevi sobre Ribeirão Claro, a minha cidade atravessada por essa história, falei do choque entre o íntimo e o estrutural. Do estranhamento de ver um lugar de afeto aparecer não como paisagem, mas como nota de rodapé do poder. Isso não é defesa política. É perplexidade ética.
Talvez o incômodo venha daí. Pensar estruturas exige mais fôlego do que acusar governos. Exige aceitar que certos problemas são anteriores, transversais e persistentes. E que combatê-los não passa por slogans, mas por vigilância, imprensa livre, justiça que funcione e leitores dispostos a ler além da primeira camada.
Não escrevo para absolver nem para condenar governos. Escrevo para tentar compreender o mundo que nos produz. E que nós, muitas vezes, seguimos reproduzindo sem perceber.
Num tempo em que tudo vira lado, talvez o gesto mais radical seja insistir na complexidade. E lembrar que nem toda reflexão é um voto. Às vezes, é só um pedido de atenção.
