PEÇA NOVA | Quase Todos

Apesar de “Quase Todos” ter nascido de um plano, o mapa e a arquitetura prévia eram elásticos, quase provisórios. Não havia rédeas firmes, nem a ilusão de controle absoluto. O texto foi surgindo de dentro, como quem vem à tona para respirar, obedecendo mais ao fôlego do que à razão. Histórias que não pediram licença. Algumas reconhecíveis demais. Outras disfarçadas, mas igualmente minhas. Um texto que carrega pedaços das nossas vidas, memórias que se infiltraram sem anúncio, afetos que pediram forma. Escrevemos assim, eu e Rodolfo García Vázquez, a quatro mãos, como sempre: escutando um ao outro, respeitando silêncios, deixando que o texto nos atravessasse antes de tentar organizá-lo.

Foi um processo surpreendentemente natural. Não porque fosse fácil – nunca é –, mas porque parecia inevitável. Como se o texto já existisse em algum lugar e nós apenas o acompanhássemos até ganhar corpo. Não orquestramos o resultado. Ele foi se impondo, delicadamente, cena após cena, palavra após palavra. Talvez por isso doa um pouco mais. Talvez por isso seja tão verdadeiro.

Ontem fizemos a primeira leitura com o elenco. E eu nunca estive tão nervoso numa primeira leitura. Nunca. Um nervosismo antigo, quase infantil, que eu julgava já ter superado depois de tantos anos de teatro. Quando terminamos, Rodolfo propôs um intervalo de quinze minutos. Quinze minutos longuíssimos. Eu estava tomado por uma sensação cruel: a de que ninguém tinha gostado do texto. Um silêncio pesado. Um julgamento imaginado. Aquela velha voz que insiste em nos colocar contra nós mesmos.

Foi só depois do intervalo, quando voltamos para conversar sobre o que havia sido lido, que algo se rearrumou dentro de mim. Vieram observações lindas, precisas, generosas. Leituras atentas. Afetos inesperados. O texto respirou no outro. E eu voltei a ficar de bem comigo. Saí dali com a convicção – serena, não eufórica – de que “Quase Todos” é um texto importante. Porque fala de coisas importantes. Das que doem, das que nos formam, das que preferimos esconder. Hoje, sigo feliz. Não por ter certezas, mas por ter atravessado o medo e encontrado escuta. E isso, no teatro e na vida, não é pouco.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2007

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