Quando o teatro reorganiza o mundo

Hoje termina a primeira temporada de Quase Todos, que estreou no Sesc 24 de Maio, no dia 19 de março. E há algo de fim que não se parece com despedida. Aparece mais com uma respiração profunda depois de atravessar um tempo que não cabia em palavras.

Voltar ao palco como ator foi, para mim, menos um gesto de decisão e mais um acontecimento. Eu já tinha decidido abandonar a minha carreira de ator e não planejava exatamente estar ali, num palco. Sabe quando você pensa que não existem mais desafios e que você já fez tudo o que deveria ter feito?

Mas desta vez, por insistência do Rodolfo, fui ficando. Fui sendo levado. Como quem encosta numa margem sem saber se é descanso ou começo. Desde Aurora, em 2021, eu não habitava o palco dessa maneira. Estive perto – nos meus solos, nos processos, nas ideias –, mas não assim, com o corpo inteiro entregue à cena. E talvez por isso tenha sido tão necessário.

Porque havia, fora do teatro, uma vida pedindo rearranjo. Daquelas fases em que o tempo se embaralha, em que as regras do jogo parecem ter sido trocadas sem aviso, em que a gente se vê reduzido a fragmentos e precisa, quase às cegas, reaprender a se montar. Houve cortes. Houve perdas. Houve uma espécie de desapropriação de mim.

Mas, ainda assim, todas as noites, havia o ensaio.

Os ensaios eram uma fresta. Um lugar onde o mundo voltava a fazer algum sentido. Ou pelo menos a ter forma. E talvez seja isso que o teatro faz de mais radical. Não resolve a vida, mas a reorganiza o suficiente para que possamos continuar. Como um fármaco, sim. Não no sentido de eliminar a dor, mas de torná-la habitável.

Foram nove meses de processo. E, nesse percurso, houve quem segurasse a minha presença quando eu mesmo vacilava. Julia Bobrow, com sua insistência cotidiana, foi uma dessas forças discretas e decisivas. Às vezes, a gente só permanece porque alguém, silenciosamente, não nos deixa ir embora.

Cheguei à estreia não inteiro, mas possível. E isso bastou.

A temporada foi linda. Há algo de profundamente comovente em ver o público ocupando o espaço, noite após noite, como quem também busca alguma forma de recomposição. O teatro, afinal, nunca é só de quem está em cena. Ele acontece nesse encontro frágil e potente entre quem se expõe e quem se dispõe.

Agora, seguimos.

A partir do dia 30 de abril, estaremos no Espaço dos Satyros, na Praça Roosevelt, de quinta a domingo, pelo tempo que for necessário. Ou pelo tempo que ainda fizer sentido estarmos juntos.

E há algo de simples que retorna, depois de tudo. A sensação de que viver, apesar de tudo, apesar mesmo, ainda pode valer a pena.

Talvez seja isso. Ou talvez seja só o teatro, mais uma vez, me ensinando a ficar.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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