Em tempos de performatividades e narratividades, não é todo dia que podemos assistir a um clássico em cartaz. E este, em especial, não é apenas um espetáculo. É uma convocação! Todos deveriam ver. Morte e Vida Severina, no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros, é um daqueles encontros raros em que o clássico se reencontra com o presente não por nostalgia, mas por urgência. A Companhia Ensaio Aberto, em seu rigor e delicadeza, transforma o poema de João Cabral de Melo Neto, atravessado pela música de Chico Buarque, numa experiência que pulsa como se tivesse sido escrita ontem.
Logo de início, percebe-se que ali tudo conversa: o texto, a música, o cenário, a iluminação, os figurinos. Não se trata de mera soma, mas de uma engrenagem sensível em que cada peça sustenta a outra. Há uma inteligência na forma como esses elementos se atravessam, como se o espetáculo respirasse por múltiplos pulmões. Nada sobra, nada falta.
A direção musical e arranjos, de Itamar Assiere, talvez seja o coração mais visível dessa travessia. Sofisticados e corajosos, os arranjos costuram releituras preciosas da MPB sem jamais violentar a memória que carregam. O “Funeral de um Lavrador”, por exemplo, talvez a canção mais conhecida da obra, surge aqui como epifania. A cena é de uma beleza que suspende o tempo. Atores e cantores se tornam uma só voz, um só lamento, um só país. Só por ela, o espetáculo já seria inesquecível. Mas o que acontece ali é algo maior. A obra se reinventa sem perder sua espinha dorsal, como se o Brasil que João Cabral descreveu ainda estivesse nos olhando.
A cenografia de JC Serroni confirma essa leitura contemporânea. Beleza e utilidade se encontram num desenho que acolhe o movimento dos corpos, que sugere geografias sem jamais fechá-las, que permite ao texto e à música respirarem com amplitude. É um cenário que não ilustra. Antes, interpreta. E, ao fazê-lo, eleva a montagem a um patamar estético de admirável clareza e modernidade. É um cenário que cria mundos. E nos transporta para uma dimensão extraordinária.
Os figurinos, de Beth Filipeck e Reinaldo Machado, seguem a mesma trilha. Dialogam com tradições, texturas, paisagens e memórias brasileiras, mas trazem também cortes, cores e gestos de agora. São como camadas de tempo sobrepostas. O Brasil de Severino e o Brasil de hoje convivendo no mesmo tecido.
A iluminação, criada por Cesar de Ramires, é outro ponto alto da montagem. Precisa como um pincel que conhece intimamente a tela, ela alterna cores vibrantes e tons quase sussurrados, conduzindo o olhar do público por geografias emocionais que expandem as propostas do texto. Há momentos em que a luz parece incendiar o palco. E outros, é como se respirasse junto com os atores, revelando nuances, conferindo espessura às paisagens humanas que ali se desenham.
A direção de Luiz Fernando Lobo – econômica, densa, precisa –, opera por pequenos deslocamentos que fazem enorme diferença. Não há desperdício. Cada entrada, cada silêncio, cada canto parece medir o peso exato do que deve ser dito. É uma condução que confia na força do material e no talento do grupo, e dessa confiança nasce uma poesia cênica. A direção produz imagens de rara beleza, daquelas que emocionam e encantam.
Ao final, talvez o maior brilho esteja na própria Companhia Ensaio Aberto. Com sede no Rio de Janeiro, o grupo é responsável pela criação do Galpão da Utopia, um dos projetos mais bonitos de urbanização por meio da arte no país. Transformaram um espaço esquecido em território de invenção, encontro e pensamento. E isso se vê no palco. É um teatro que nasce do compromisso com a cidade, com o outro e com a vida.
Morte e Vida Severina é um lembrete de que ainda precisamos escutar o Brasil profundo que teima em existir apesar de tudo. A Ensaio Aberto nos oferece não apenas um espetáculo, mas uma travessia. Dessas que nos tornam, por alguns instantes, mais atentos, mais porosos, mais humanos.
Imprescindíveis. Sempre.
