Rever A Máquina, de João Falcão, vinte e cinco anos depois é um gesto de memória. E, inevitavelmente, de análise. Porque algumas peças não envelhecem. Elas nos envelhecem, nos colocam de frente para o tempo que, inevitavelmente, passou por cima de nós.
Vi A Máquina no Festival de Curitiba, 25 anos atrás. Tenho uma memória nítida daquele assombro. Havia uma brisa de ar fresco, leve e quase insolente soprando na cena brasileira. Uma peça que discutia amor, tempo, desejo e destino sem gravidade, sem cinismo, sem medo de gracilidade.
O elenco – Karina Falcão, Gustavo Falcão, Lázaro Ramos, Vladimir Brichta e Wagner Moura – era algo extraordinário. Eles estavam realizando um milagre que é raro: virtuosismo sem exibicionismo. Era como se os atores estivessem brincando com o texto, descobrindo o mundo como o discutiam. O teatro era o acontecimento.
Retornar à Máquina hoje é testemunhar o mesmo mecanismo poético em funcionamento, mas sob uma luz diferente, em um ritmo diferente. A nova produção, com Agnes Brichta, Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli e Vitor Britto é vibrante, precisa e agradável. São atores muito bons, jovens, cheios de energia e brilho. A encenação continua intensa, afinada. Mas não é mais o início fresco. Nem poderia ser. E talvez não seja um problema. Talvez seja exatamente o que é.
Porque o frescor, como o desejo, não pode ser repetido. Ele ocorre uma vez. Então ele se torna memória, mito, marca. A Máquina de 2000 não pode existir em 2025. E nem deve. O que se vê hoje é outra coisa. Não é o sopro fresco do início, é o que gira consciente de si.
Este reencontro é revelador. Não é apenas a peça que mudou. Sou eu. Vinte e cinco anos atrás, eu estava vivendo há pouco em São Paulo. Os Satyros haviam acabado de chegar à Roosevelt. Um mundo inteiro estava por acontecer. Tinha risco, desejo, aposta, urgência. Tinha sobra de futuro. Assistir àquela Máquina era também assistir a um corpo jovem diante do tempo, desejoso e irresponsável, que acreditava – talvez mesmo ingenuamente – que tudo ainda seria possível.
O Ivam de 2025 chega a essa mesma obra com outra bagagem. Mais história, mais perdas, mais elaborações. E talvez com um desejo inconsciente de reencontrar seu frescor. Como se fosse possível o apagar do agora para garantir uma sensação primeira. Mas o teatro, como o inconsciente, não opera assim. Ele não nos dá o passado. Ele nos devolve a nossa presença nele.
Nesse sentido, o elenco jovem da atual montagem quase opera com um espelho invertido. Eles têm o frescor que não tenho mais. E isso incomoda. Porque implica aceitar que o tempo passou. Mas implica também reconhecer que isso não é tragédia. É vida. A Máquina continua girando. Somos nós que mudamos de lugar diante dela.
Talvez por isso esse reencontro seja tão bonito. É que a Máquina segue sendo um dispositivo poético sobre o amor e o tempo, mas agora ela também fala de outra coisa. Fala da impossibilidade de voltar e da urgência de seguir. Mas não como perda. Como transformação.
Vinte e cinco anos depois, a peça não me devolveu o espanto. Mas me deu outra coisa igualmente preciosa. A consciência de que o teatro, quando verdadeiro, não detém o tempo. Apenas nos ajuda a atravessá-lo.
