Onde as Dúvidas Aprendem a Respirar

Com o retorno às aulas, a SP Escola de Teatro acende suas luzes. Não apenas as do prédio, mas aquelas outras, mais delicadas, que se acendem por dentro. Há um brilho discreto no ar, uma espécie de eletricidade mansa: o estado gostoso da novidade. As coisas ainda não têm nome, mas já pedem atenção. Os rostos chegam um pouco tensos, um pouco curiosos, e aos poucos vão se iluminando, como quem encontra uma fresta depois de atravessar um corredor escuro.

Chegar é difícil. A gente sabe. Chegar quase nunca é um gesto simples. Quantas vezes não chegamos a um lugar carregando perguntas demais, respostas de menos, dúvidas que não cessam – e talvez nem devam cessar. Chegar é trazer o corpo inteiro: medos, expectativas, histórias, silêncios. É perceber, logo de início, aquela sensação incômoda de não caber. Como se o espaço fosse maior ou menor do que a gente. Como se faltasse um ajuste fino entre o mundo e o próprio corpo.

Mas é justamente aí que algo bonito acontece. A escola se enche de questões. Estudantes, colaboradoras e colaboradores tentando se equilibrar nesse território instável onde tudo ainda está por fazer. Um território que parece, num primeiro momento, estranho demais e que, aos poucos, vai se tornando habitável. As dúvidas não diminuem. Ao contrário, crescem. E é bom quando isso acontece. Porque elas crescem como um grande rio, desses que só existem porque acolhem outros rios, veias, afluentes. Alguns chegam com força, impetuosos. Outros vêm frágeis, quase secos, precisando de braços, de escuta, de outros corações para não desaparecerem no caminho. A gente já foi assim — um dia, ou muitos. É bom lembrar.

Há algo profundamente comovente nesse emaranhado de águas. Caminhos que se encontram, sentidos que nascem onde não se esperava, futuros que começam a ser desenhados muito além das nossas percepções mais simples. É lindo ver quando o significado escapa do controle, quando a experiência ensina mais do que qualquer plano prévio.

E talvez seja isso que a escola, mais uma vez, nos lembre: tudo é processo. Nada se fecha de imediato. Tudo se ressignifica dia após dia. O compromisso com a vida – e essa vida dura, exigente, por vezes implacável – vai ganhando contorno, vai fazendo sentido no encontro, na tentativa, no erro, na insistência. No fim das contas, é isso que se ilumina quando as aulas começam: a possibilidade de continuar, juntos, mesmo sem saber exatamente onde vamos chegar.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2015

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