O tempo que constrói a gente

Ontem me reuni com a turma matutina de Atuação da SP Escola Superior de Teatro. Existem encontros que não cabem numa agenda, simplesmente. Estou falando destes encontros que acontecem como quem abre o coração. Nestes, há sempre um misto de responsabilidade e esperança. Não era uma reunião burocrática. Antes, quase um rito. Durante noventa minutos, que passaram como quem atravessa um tempo suspenso, falamos de futuros. E falar de futuro, quando se está formando artistas, é sempre falar de riscos.

Havia maturidade na sala. Havia escuta. Havia uma coragem silenciosa, dessas que não fazem barulho, mas sustentam a vida da gente. Porque havia afeto também.

Em determinado momento, um estudante tocou num ponto delicado. O problema da felicidade em ambientes que precisam de reflexão. Fiquei com aquilo ecoando como uma pergunta que não quer se calar. Afinal, o que é felicidade senão uma tentativa, sempre parcial, de apaziguar o mal-estar que nos constitui? Talvez o crescimento exija justamente o contrário. Aceitar que o desconforto é estrutural, que a falta não é um erro do sistema, mas seu motor.

A felicidade pode ser um território confortável demais. Crescer, não. Crescer exige atenção, fricção. Exige atravessar zonas de incerteza onde a vida não responde com gentileza. A vida, muitas vezes, nos empurra contra a parede não por crueldade, mas por método. Como quem ordena: suportem a falta! Trabalhem com ela! Façam dela linguagem! Se reinventem!

Não é fácil conviver com as adversidades. Ninguém acorda desejando tensão. Mas são as tensões que nos lembram de que estamos vivos. Talvez a felicidade, quando vem cedo demais, funcione como uma defesa, uma tentativa de apaziguar o vazio que move a gente. E, no entanto, é esse vazio que cria obra, que cria pensamento, que cria arte e cria também movimentos que colocam a gente em suspensão.

A segunda coisa que me atravessou foi uma descoberta inesperada. A artista pedagoga da sala, portuguesa recém-chegada ao Brasil, falava com aquele brilho e aquela timidez luminosa de quem começa a desenhar raízes em outro chão. E, de repente, me dei conta: eu já ocupei exatamente aquele lugar.

Sete anos da minha vida foram vividos em Lisboa. Fui imigrante. Fui estrangeiro. Fui aquele que precisa reaprender códigos, silêncios, ironias e até afetos. Lembro do amor que recebi. Muito amor. E lembro também das advertências, das fronteiras invisíveis, das pequenas provas diárias que o mundo impõe a quem chega de fora. Eram os anos 1990. Eu tinha vinte e poucos anos. Outro tempo. Outro jeito de olhar o mundo.

A juventude, naquela época, parecia infinita. E, no entanto, ela já estava se despedindo enquanto eu a vivia. A juventude é sempre uma perda em curso. Só percebemos depois que ela se foi. E que, no lugar dela, o tempo construiu outra coisa: lastro.

Enquanto pensava nisso, quis me colocar em horizontalidade. Perguntei à formadora se ela se importava em dizer a idade. “Trinta e dois anos”, respondeu. E ali houve uma pequena vertigem. Precisamente aos trinta e dois eu estava em Portugal. Naquela mesma idade eu ocupava o lugar que hoje ela ocupa diante de mim. Com trinta e dois, eu também era formador de jovens atores, numa sala na Praça da Alegria, na Baixa lisboeta. Um espelho deformado pelo tempo. Mas, ainda assim, espelho.

Foi como se o passado tivesse levantado a mão e pedido a palavra.

Entendi, naquele instante, algo simples e perturbador. O tempo não nos rouba apenas. Ele nos constrói. A juventude se perde, inevitavelmente. Em seu lugar, surge uma camada a mais de consciência. Perdemos velocidade, ganhamos profundidade. Perdemos a ilusão de completude, ganhamos a capacidade de suportar a incompletude.

Mudam os contextos, mudam as línguas, mas o rito permanece. Sair de casa, enfrentar o estrangeiro, se reinventar. E talvez seja isso a maturidade: saber que a felicidade não é um estado permanente, mas um intervalo. Um intervalo precioso que precisa conviver com a falta, com o medo, com o desejo e com a tensão que nos empurra adiante.

Pensei então na formadora daqui a trinta anos. Onde estará? Que histórias contará? Que advertências terá transformado em sabedoria? Que juventude terá deixado pelo caminho para construir outra versão de si mesma?

Talvez sempre precisemos de um ponto a mais no nosso processo evolutivo. Um deslocamento, um desencaixe.Uma dúvida. Algo que nos obrigue a sair da fotografia confortável e possa nos devolver ao movimento. Esse movimento que a psicanálise chama de desejo.

Saí daquela sala com a sensação de que o futuro não é um lugar para onde se corre. É um lugar que se elabora. Na conversa. Na escuta. Na frustração suportada. Na coragem de reconhecer que já fomos o outro.

E que, inevitavelmente, ainda seremos.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2025

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