Vou ao teatro como quem busca um lugar pra rezar. Mas talvez seja preciso dizer que reza é esta. A minha religiosidade não se dirige a um deus, mas a mim mesmo. Pra mim, rezar sempre foi isso: um instante de encontro. Um momento em que a gente suspende o ruído do mundo pra se escutar por dentro. O teatro, nesse sentido, não está tão distante.
É ali, diante da cena, que algo em mim se revela. Como se o palco devolvesse uma imagem que não é exatamente a dos atores, mas a minha. Um espelho deslocado, imperfeito, mas profundamente verdadeiro. E eu fico ali, diante de mim, tentando compreender o que vejo.
Eu não vou ao teatro pra julgar. Vou pra me deixar afetar. Nunca soube exatamente em que momento essa decisão se tornou um modo de vida. Talvez tenha sido aos poucos, como quase tudo o que realmente importa. Um deslocamento sutil. Sair do lugar de quem observa para o de quem se implica. Porque, pra mim, o teatro nunca foi um tribunal. Sempre foi encontro
Não julgo porque não sou crítico de teatro. Digo isso sem qualquer recusa à crítica, mas como quem reconhece o próprio lugar no mundo. Eu não entro numa sala escura pra conferir se algo funciona ou falha. Entro porque gosto de estar ali. Porque gosto de histórias, de gente, de tudo aquilo que pulsa quando alguém decide dividir um pouco de si diante de outros.
E há algo no teatro que me parece mais cortante do que em qualquer outra linguagem. Talvez porque ele não permita distância. O cinema nos envolve, a literatura nos acompanha, mas o teatro nos convoca. Ele acontece ali, diante de nós, no mesmo tempo em que respiramos. É presente absoluto. É o mundo sendo pensado enquanto ainda está em movimento.
Por isso, talvez, eu sinta o teatro tão próximo da filosofia. Como se fossem irmãos. Não apenas por origem, mas por destino. Ambos interessados nas mesmas perguntas fundamentais. O que estamos fazendo aqui? Como viver? O que é isso que chamamos de vida quando ninguém está olhando?
Eu vou ao teatro porque quero estar dentro dessas perguntas. E vou apaixonado. Sempre.
De peito aberto, de coração exposto, disposto a ser afetado. Porque há uma espécie de pacto silencioso que se estabelece quando a luz se apaga. Naquele momento, alguém vai me oferecer algo. E eu preciso estar disponível pra receber.
Não. Nem sempre é confortável.
Às vezes saio em silêncio. Às vezes não consigo abraçar os colegas que estão ali, no saguão, esperando uma palavra, um gesto, qualquer confirmação. Mas não é desdém. É, talvez, respeito. Porque, na maioria das vezes, sinto que aquilo que vi me foi confiado como um segredo. E segredos não se revelam. Eles pedem tempo. Pedem decantação.
Eu preciso ir embora com a peça ainda dentro de mim.
E quando algo não me atravessa – ou não me atravessa como poderia – não é um problema a ser denunciado. É um enigma a ser escutado. Nunca me interessou dizer se gostei ou não gostei. Essa é uma pergunta pequena diante do que o teatro pode oferecer.
Prefiro perguntar: o que isso me fez pensar? O que se deslocou em mim? Que tipo de mundo isso propõe, mesmo quando não sabe que está propondo?
Escrever sobre um espetáculo, então, nunca foi um gesto de julgamento. É um gesto de elaboração. Uma tentativa de permanecer em diálogo com aquilo que me tocou, mesmo quando esse toque é quase imperceptível.
Por isso, talvez, vocês nunca me verão “detonando” uma peça. Não por gentileza, nem por diplomacia. Mas por convicção. Porque não acredito nesse lugar de autoridade que se veste de critérios universais pra dizer o que deve ou não existir.
O mundo é maior do que qualquer cânone.
E, mais do que isso, o mundo é múltiplo demais pra caber em uma única forma de olhar.
Há tantas maneiras de pensar. Tantas formas de sentir. Tantas tentativas – algumas frágeis, outras potentes, é bom lembrar – de dar conta da experiência de estar vivo. Quem sou eu pra interditar uma delas?
O que me interessa é outra coisa.
Quero ser um bom ser humano. E isso, hoje, me parece uma tarefa radical. Vou ao teatro também pra encontrar uma possibilidade de me tornar melhor diante do mundo. Quero participar da construção de mundos que sejam, de fato, mundos. Não apenas possíveis, mas reais. Mundos que se afirmem, e não o esboço de algo que “poderia ser”. Quero pensar, mas também fazer. Quero interferir. Mas, sobretudo, cuidar.
O teatro, pra mim, é um dos lugares onde isso ainda é possível. Porque ali, no encontro entre quem faz e quem assiste, algo se reorganiza. Ainda que por instantes. Ainda que de forma precária. Ainda que ninguém saiba exatamente nomear.
E talvez seja isso o que mais me comove. Não a certeza de que estamos certos. Mas a beleza de continuarmos tentando. Juntos.
