O Segredo dos Ovos Invisíveis

Naquele tempo a Páscoa não era promessa de abundância, mas invenção de delicadeza. Antes do brilho industrial dos chocolates, antes das prateleiras que hoje anunciam felicidade em embalagens padronizadas, havia um gesto. E esse gesto tinha mãos. As da nossa mãe.

Os ovos não vinham prontos. Vinham vazios. Eram, na verdade, aquilo que sobrava do cotidiano: a casca frágil de um almoço, a matéria discreta de um jantar. Com um pequeno furo na extremidade, ela retirava o conteúdo e guardava o essencial: a forma. Como quem entende que a vida, às vezes, começa no que parece resto.

Sem que víssemos – e esse talvez seja o ponto mais bonito – ela iniciava seu trabalho secreto. Dias antes da Páscoa, enquanto seguíamos nossas rotinas de criança, ela preenchia aqueles vazios com amendoim doce. Depois, vinha o encantamento: as tintas guache, as cores improvisadas, os traços que transformavam cascas em personagens. Alguns ovos ganhavam olhos, outros sorrisos, alguns até barbas de algodão. Pequenos seres nasciam ali, silenciosamente, no território invisível do cuidado.

Nós tentávamos descobrir o momento da criação. Espiávamos, inventávamos estratégias, conspirávamos entre nós. Mas nunca conseguimos flagrar o instante. E foi justamente esse fracasso que nos deu uma crença: a de que aquilo não era apenas obra da nossa mãe. Havia, sim, um outro lugar. Um território secreto onde coelhos organizavam o mundo e onde as coisas aconteciam sem que a gente precisasse entender como.

Hoje penso que ela sabia disso. Sabia que o mistério também educa. Que nem tudo precisa ser revelado para ser verdadeiro. E que a infância se sustenta, em grande parte, naquilo que não conseguimos explicar.

Depois vieram os ovos de chocolate. Chegavam com brilho, embrulhados em papéis coloridos, trazidos pelo nosso irmão Irineu, que vinha de longe e, junto com os ovos, trazia também um pedaço do mundo. Havia ali uma outra forma de encanto. Menos silenciosa, talvez, mas não menos potente. Porque aqueles ovos não vinham só nas mãos dele. Vinham carregados de saudade, de travessia, de cuidado. E, de algum modo, também guardavam um segredo. O de transformar distância em presença.

O que ficou, no entanto, não foi o sabor do amendoim doce, nem a textura da tinta guache nas mãos. O que ficou foi essa espécie de fé inaugural. A de que o amor pode se esconder, trabalhar em silêncio, e ainda assim transformar completamente a realidade. Porque, no fundo, aqueles ovos nunca foram apenas ovos. E nossa mãe nunca foi apenas nossa mãe.

Ela era, também, a guardiã de um mundo onde o impossível não precisava se justificar. Onde a beleza nascia do pouco. Onde o invisível era, talvez, a forma mais concreta de presença.

E é disso que sinto saudade. Não de um tempo que passou, mas de um modo de acreditar.

Feliz Páscoa a todas e todos.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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