Quase Todos (2026)
por Alexandre Mate
A desgraça não sobrevém como extinção radical do passado, mas quando o historicamente condenado é arrastado como morto, neutralizado, impotente e rebaixado[1] de modo indigno.
Theodor Adorno (Minima Moralia).
À semelhança de outras criações e a partir de proposições estilísticas bastante marcantes e características, o espetáculo Quase Todos, com direção de Rodolfo García Vázquez, envereda pelas infindáveis possibilidades do universo da obra experimental, híbrida e absolutamente repleta de teatralidades. Em sua complexa composição, distintas linguagens artísticas confluem para contar uma história, por meio de forma épica e expedientes videocinematográficos. O resultado espetacular apresenta o conjunto de artistas da cena, que se manifesta pela presença viva de seus corpos, pela narração gravada, por meio da projeção de sombras em três telões (colocados no palco em sentido paralelo ao público) e nos quais aparecem imagens que se referem a uma sociedade absolutamente manipulada e administrada, no sentido adorniano. Em Quase Todos, possivelmente, uma mixórdia de contrastes extremados (decorrente, sobretudo, da práxis que Valle-Inclán batizou de esperpento[2]). Os Satyros não transitam com a estética hegemônica, ao contrário, o conjunto de suas obras, têm tomado um conjunto de influências e paradigmas para remontá-los, por meio de sobre e justaposição signica para produzir suas obras.
Retomando o uso das imagens nas telas de projeção, cujas sombras assemelhadamente corresponde a seres humanos, do ponto de vista narrativo, penso ser possível – e arriscadamente – afirmar que tal proposição caracteriza-se em uma espécie de nota de roda pé. De outro modo, o principal está no corpo da cena, mas as imagens projetadas reforçam, a partir de outras pistas e índices, não tão facilmente apreensíveis e mais abissais, a profundidade metafórica do conjunto de escolhas simbólicas, coligidas, para contar a história de uma família. Trata-se, portanto, de uma obra radical (em todos os seus sentidos) simbólicos, a correr todos (ou quase todos) os riscos de visceralidades não concessivas.
Em tese, as personagens da montagem em destaque, apresentam a trajetória de uma família – que concerne a uma metáfora alegórica da sociedade – completamente desestruturada. A etimologia da palavra latina família (de famulus) refere-se a um grupo social que dispõe de um escravo ao seu serviço. Donde, do ponto de vista da ideologia liberal, as mulheres trabalhadoras em tais conjuntos, depois dos processos ditos de libertação, têm se caracterizado na figura da “escrava” a atender aos interesses do conjunto de que venha a fazer parte. Portanto, nos processos de convivialidades burguesa a constituição de uma família significa, sobretudo, laços distintos e escravizadores. Metaforicamente e de modo cru, filhos e filhas que saem de casa, e sem formar novas famílias libertam-se do escravagismo, mas não de suas memórias, cujos papeis – em tese – são bastante distintos e sexistas. E Quase Todos, a narrativa evocada e praticada a partir da dramaturgia de texto é fundamentalmente vocativa: fala-se muito, mas raros são os momentos dialógicos.
Poder-se-ia afirmar que a saga familiar, na condição de paradigma alegórico de convivialidade social ampliada, inserir-se-ia na categoria de um drama (cujo adjetivo e categoria concerneriam à “peça pesadelo” ou à chamada dream play). Nascida no Simbolismo francês e reconfigurada de modo mais radicalizado e extremado pelo Expressionismo alemão, as obras inseridas em tais escolas estéticas transitavam entre/no “entrecosturamento borrado” do real e do surreal. Desse modo, os processos de transgressão do imposto ideologicamente, pela moral retórica (mas não necessariamente praticada) pela classe hegemônica na esfera privada chafurdam na esfera público-institucional, entretanto, ainda que se engane os próximos (os quase todos) não libertam os seres de suas toneladas de traumas. A memória é acordada e, como afirmou a professora Marilena Chaui, em outro contexto, aproxima-se da condição de um semióforo (sinalizador) de vidas pregressas, permanentemente, se não enfretada, escravizadora da existência.
Em tese, e sobretudo na condição de alegoria, a obra se estrutura por meio de figuras ou seres inconclusos de um agrupamento familiar cujos dramas coletivos e individuais, sinistros e grotescos, patéticos e – superficialmente – reais, tanto pelo exageramento interpretativo, como pelo figurino, com tons róseos e azul bebê parecem dominar. Os diálogos se desenvolvem em um (in)definido espaço refratário e anti-ilusionista e se materializam por meio de um manifesto estado a tangenciar o farsesco. Em tal perspectiva, o texto, que trata e manifesta a impossibilidade convivial entre sujeitos de um mesmo grupo social (família) é absolutamente denso (e reconhecido por qualquer ser inserido no mundo). Entretanto, e penso ser um aspecto genial, a caracterização das personagens e suas interpretações afastam do tom trágico, mas remetem a contextos de limbo. Em alguns momentos, pode-se notar o/ a intérprete com discernimento, como se expiasse/ espiasse a si mesmo e ao seu trabalho. Particularmente, aprecio demais tal proposição antirrealista, mas eivada de tragicidade.
O espetáculo transita pelos entre, em que tudo até pode ser reconhecido, parcialmente percebido, entretanto, e a parafrasear texto de Clarice Lispector, “apenas” se caracteriza em óculos que até pode fazer enxergar, mas a amplia a nossa miopia.
Realmente, Quase Todos não se caracteriza em obra que nasceu para agradar a toda gente, mas, e parece patente, nasceu para incomodar. No espetáculo Cosmogonia, primeira obra que tive uma análise crítica publicada (Revista Bravo!), batizei a análise crítica do espetáculo com o título de “Metafísica do Pesadelo”. Tratava-se de um nome que sentia ser possível atribuir àquela obra e experiência estética. De lá para cá outros catastróficos horrores foram vividos pela humanidade… a pandemia (covid-19) e a volta dos nazifascismos a promover todas as possibilidades humanas de afeto. Processos traumáticos de tal natureza tendem a abissalizar os seres para dentro de si. Ivam Cabral, nos últimos anos aprofundou-se na psicanálise, formou-se psicanalista e passou a viver, cotidianamente, com outros – e multiplicados – fantasmas alheios. Em razão disso, penso que, com Quase Todos, se teria – sem repetir expedientes – uma espécie de “Metafísica do Pesadelo ao Paroxismo”.
O programa contém pequenos – e contundentes – ensaios de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez: “Encenar o Tempo e a Memória”, “O que a Gente Faz Quando Está Vivo?”, “Família: Território de Afeto e Conflito”, “A Morte Quando Chega Tarde, Chega Educada”. “Solidão: Mesmo Quando Estamos Juntos”; “Sobreviver É Organizar Afetos”, “Memória à Venda: Inteligência Artificial e a Fabricação da Experiência”, “A Falência da Razão Sem Afeto”. Portanto, trata-se de um programa a ser lido tendo como referência o próprio espetáculo e tantos e incontáveis momentos de nossas vidas.
A ficha técnica do espetáculo é composta pelos seguintes nomes: dramaturgia Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez; assistência de direção: Renato Moraes; elenco: Ivam Cabral, Julia Bobrow, Diego Rifer, Tai Zatolinni, Márcia Dailyn, Gustavo Ferreira, André Lu, Eduardo Chagas, Gabi Flores e Thiago Ribeiro; cenografia, design de laser, LED digital e vídeo mapping: Thiago Capella; confecção do cenário: Emerson Fernandes e João Bento; montagem do cenário: Ademir Gazarolli e João Bento; operação de vídeo e laser: Heyde Sayama; produção audiovisual: Circulus Ópera; iluminação: Flavio Duarte, Rodolfo García Vázquez e Thiago Capella; operação de luz: Flavio Duarte; figurinos: Elisa Barbosa, Gustavo Parreira e Jota Silva; assistência na criação dos figurinos: Emília Lira; adereços: Eduardo Chagas, Eliza Barboza e Emília Lira; visagismo: Maxime Weber; modelagem: Lucas Maia; preparação vocal e colaboração na criação da trilha musical: André Lu; Trilha sonora original e desenho de som: Felipe Zancanaro e Lea Arafah; registro fotográfico: Andre Stefano e Tai Zatollini; produção: Diego Rifer; assistência de produção: Gabriel Mello; programação visual: Tai Zatolinni; textos do programa: Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez; idealização: Os Satyros; realização: Sesc São Paulo.
[1] Na tradução de Artur Morão, em obra publicada em 2001, aparece a palavra “denegrido”, fiz a troca necessária, em razão de serem outros os tempos que estamos a viver.
[2] De modo absolutamente sumário, Ramón José Simón del Valle y Peña, rebatizado de Ramón Maria del Valle-Inclán ou simplesmente Valle-Inclán (1866-1936), em 1920 criou um neoconvencionalismo estético, que ele chamou de esperpento. Em tese, trata-se, “copiando” de algum modo os contrastes mais perversos da vida real, de transitar com resultados que decorreriam do rebatimento de imagens clássicas em espelhos côncavos e convexos. De tal processo, tanto o desenvolvimento de tratamentos temáticos, como as personagens da cena resultariam de tais espelhamentos, cujo resultado, no mínimo, seria absolutamente grotesco. A partir de tal processo, número significativo de artistas, a partir de procedimentos de ressignificação, a seus contextos específico, tem se pautado em tal proposição. O mago do cinema Pedro Almodóvar, por exemplo, seria um desses exemplos. Logo, não se trata de gostar ou não do exagerarmento, mas, e sobretudo, compreender uma cadeia de motivo metafórico-simbólicos presentes em tal procedimento. Junto disso, é bom lembrar, também, que, em 1997, Os Satyros, com direção de Rodolfo García Vázquez, montaram Divinas Palavras, de Valle-Inclán. Por último, tanto Quase Todos, como Divinas Palavras alicerçam-se, tematicamente, na esfera privada (família) para retratar sociedades e tempos grotescos.
