Assisti ontem, no Sesc Consolação, a Medea de Sêneca. Saí em silêncio. Este trabalho não dá pra aplaudir de imediato. Pede travessia, distanciamento, silêncio. E pede tempo também. E, talvez até, alguma coragem.
O mito é antigo. Em Eurípides, Medeia é urgência. Carne viva. A tragédia é construída como quem arma um arco: cada gesto tensiona o inevitável. A dor é política e íntima ao mesmo tempo. A estrangeira traída que, acuada pelo poder e pelo abandono, responde com o gesto extremo. Eurípides organiza o horror com uma precisão quase clínica. E, justamente por isso, nos fere. A arquitetura da peça é uma máquina trágica perfeita. Sabemos que algo irreparável acontecerá, mas não conseguimos impedir.
Já em Sêneca, a Medeia é excesso. É verbo inflamado. É retórica que incendeia o próprio ar. Se Eurípides constrói, Sêneca dilata. Se o grego desenha a engrenagem, o romano sopra o fogo. A personagem em Sêneca parece menos cercada pela polis e mais possuída por uma força interior que transborda. Há menos contenção, mais abismo.
Confesso: prefiro a urgência de Eurípides. A maneira como ele estrutura a tragédia me parece mais devastadora. Mas é justamente por isso que visitar Sêneca se torna necessário. Ele nos obriga a olhar o monstro de frente, sem mediação, sem disfarce. E talvez o nosso tempo peça essa desmedida.
Porque este mito, um dos mais importantes da história do teatro, precisa ser revisto sempre. Como lembra o cenógrafo J. C. Serroni, no programa do espetáculo, em tempos como os que se vão, Medeia deixa de ser apenas personagem. Nunca vimos tantos crimes contra mulheres. Contra crianças. E, nesse emaranhado trágico de poder, destruição e desamparo, também contra o meio ambiente. Medeia, hoje, não é só a mãe que mata. É também o retrato de uma civilização que perdeu a medida.
A encenação de Gabriel Villela é potência criativa em estado puro. Ele nunca dirige apenas uma peça. Convoca uma cosmogonia. E aqui há uma beleza que não suaviza o horror, mas o emoldura com rigor estético. A última cena é de um deslumbramento impressionante. Quando a luz de Wagner Freire se impõe, não é apenas iluminação: é revelação. É como se o trágico encontrasse sua própria aurora.
Os cenários de Serroni são mágicos. Há algo de ritual e de infância, de poesia e de ruína. Ele constrói espaços que respiram. E que, ao mesmo tempo, parecem prestes a desabar.
E as atrizes. Que trabalho! Rosana Stavis talvez seja a maior de todas nós. Há nela uma técnica invisível, dessas que não exibem virtuosismo, mas sustentam o mundo. Sua Medeia não é caricatura nem delírio gratuito. É pensamento em combustão. É dor que raciocina. É fúria lúcida. Ao seu lado, Mariana Muniz e Walderez de Barros são irretocáveis. Presenças que sustentam o peso do mito sem jamais ceder ao excesso.
Saí do teatro pensando que Medeia não nos pede julgamento. Pede escuta. Pede revisão. Pede que olhemos para aquilo que produzimos como sociedade quando isolamos, humilhamos, violentamos e descartamos.
Talvez seja isso que faz de Medea de Sêneca um espetáculo necessário. Ele não nos deixa confortáveis na plateia. Ele nos devolve ao mundo com uma pergunta incômoda e urgente.
O que estamos fazendo com as nossas próprias tragédias?
