Marina Lima: o que permanece quando tudo passa

Ópera Grunkie, o mais recente álbum de Marina Lima, já nasce imponente. Talvez seja o trabalho mais importante de sua trajetória. É também um dos mais criativos. Há nele uma musicalidade atravessada por uma modernidade viva, dessas que não perdoam a inteligência, nem as formas que ela encontra para se inscrever no tempo em que vivemos.

Não é apenas um novo trabalho. É um disco que se comporta como obra inteira. É fragmentado, como deve ser toda obra que é parida pelo coração. Exige escuta contínua, quase ritualística. Porque existe nele uma arquitetura muito bem desenhada. Uma respiração própria. Como se cada música fosse menos uma canção e mais um movimento dentro de um pensamento maior.

E talvez seja justamente aí que Ópera Grunkie se impõe como um dos pontos mais altos da trajetória de Marina.

A musicalidade é inquieta, contemporânea, absolutamente conectada com o nosso tempo, mas sem qualquer esforço de atualização artificial. Não há concessão. O disco soa moderno não porque tenta ser, mas porque Marina sempre esteve um passo além de seu tempo. Sempre esteve num tempo próprio, que agora o mundo parece finalmente alcançar.

Há texturas eletrônicas, há camadas, há riscos. Mas, sobretudo, há uma inteligência musical rara, aquela que sabe quando preencher e, principalmente, quando retirar. O silêncio aqui também compõe.

É inevitável ler o disco à luz da perda de Antonio Cicero, seu irmão, parceiro histórico, presença estrutural em sua obra, especialmente neste Ópera Grunkie. Mas reduzir o trabalho a um gesto de homenagem seria pouco. Muito pouco. Porque o que Marina faz não é reverência. É continuidade.

Antonio está ali, sim, mas como linguagem, como pensamento que segue operando, como uma espécie de corrente subterrânea que sustenta o disco. Não há luto explícito, nem dramatização. Há elaboração. E isso talvez seja ainda mais radical. Porque elaborar é transformar a perda em forma. E Marina faz isso com uma elegância que desarma.

Ao mesmo tempo, o disco reafirma algo que, por vezes, parece precisar ser lembrado, o que já é, por si só, um sintoma.

Marina Lima não é apenas uma grande intérprete. Ela é uma das maiores compositoras da música brasileira. Não apenas de sua geração, mas da história da música brasileira. E, no entanto, esse reconhecimento nem sempre vem com a nitidez que deveria.

Existe, ainda hoje, um certo ruído nas leituras críticas sobre sua obra. Um deslocamento. Como se fosse necessário reafirmar o óbvio. Como se a autoria feminina ainda precisasse pedir validação num território historicamente ocupado e, muitas vezes, protegido por homens. A canção brasileira foi, por muito tempo, narrada a partir de um cânone masculino. E isso não é um detalhe. É estrutura.

As mulheres, ainda hoje, seguem sendo minoria quando se trata de composição – ou, ao menos, de reconhecimento autoral. Como se escrever canções fosse um gesto naturalmente masculino. Como se o território da invenção fosse, por definição, deles.

Marina sempre tensionou esse lugar. E Ópera Grunkie talvez seja uma de suas respostas mais contundentes. Não por confronto direto, mas pela potência do próprio trabalho. Pela consistência. Pela invenção. Pela recusa em simplificar.

Há algo de profundamente político nesse disco. Não no sentido panfletário, mas no gesto de existir com complexidade. De não caber em rótulos. De não oferecer facilidades.

Marina está além da própria voz. E isso é raro. Porque a voz, nela, nunca foi limite. Foi apenas mais uma das camadas de um pensamento artístico muito mais amplo.

Ópera Grunkie não soa como um fechamento. Soa como expansão. Como se, depois de tudo, ainda houvesse mais a dizer. E há.

E talvez seja isso que mais impressiona. A sensação de que Marina não está olhando para trás. Está, como sempre esteve, criando à frente.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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