Luiz de Nadai e o Dia em que a Juventude Morreu um Pouco

O Luiz de Nadai era o galã da nossa turma de Artes Cênicas, lá em meados dos anos 1980, em Curitiba. Mas não era apenas bonito – embora fosse. Havia nele uma espécie de luz natural; estava sempre sorrindo. Excelente ator, cantava, tocava violão, compunha. Namorava a Cláudia, linda, inteligente, dessas presenças igualmente luminosas. Os dois acabaram se casando. Eram, para nós, uma espécie de espelho antecipado: aquilo que imaginávamos ser quando “crescêssemos” – embora tivéssemos a mesma idade, os mesmos vinte e poucos anos, os mesmos sustos diante do futuro.

Luiz e Cláudia moravam sempre em casas descoladas, com plantas nas janelas, livros espalhados, violão encostado no sofá. Era comum sairmos das aulas e irmos parar lá, como quem estica o dia para que ele não termine nunca. Havia sempre cervejas, risadas, planos mirabolantes e uma convicção silenciosa de que o mundo nos esperava. Ou melhor: de que nós é que o inventaríamos.

Luiz Henrique – para nós, Lu – tinha também seu próprio grupo de teatro, o Leite Amargo, Leite Quente. Chamava os mais descolados da turma e os reunia como um pequeno general da sensibilidade. Me lembro da montagem de O Inspetor Geral, de Nikolai Gogol, dirigida por Lilian Fleury. Nós assistíamos com aquele orgulho que só os muito jovens conhecem. Afinal, era um de nós ali, desafiando o mundo.

E havia os festivais universitários de música. Luiz sempre tinha uma composição selecionada, defendida no palco do Teatro Guaíra. Nós na plateia, em estado de torcida organizada, vibrando como se o destino da arte brasileira dependesse daquela canção. Talvez dependesse mesmo – ao menos para nós.

Foram quatro anos mágicos. Descobertas, ensaios intermináveis, paixões rápidas e eternas, planos para o futuro que hoje soam ingênuos, mas eram absolutamente necessários. A gente se divertia com tão pouco. Uma coxinha depois da aula, uma conversa madrugada adentro, um violão afinado mais ou menos. A felicidade, naquele tempo, não exigia grandes produções.

Depois que saí de Curitiba, nos vimos poucas vezes. A vida, essa diretora exigente, nos distribuiu por outros palcos. Ficamos amigos pelas redes sociais. De vez em quando, um coraçãozinho aqui, outro ali. Pequenos sinais de que o fio não havia se rompido completamente. Nos últimos anos, eu sabia que ele estava vivendo na Itália. Pelas fotos, parecia feliz. Há algo de reconfortante em imaginar que os nossos amigos estão felizes, mesmo à distância. É como se uma parte da nossa juventude também estivesse.

Hoje recebi a notícia de que nosso amigo desviveu. E foi como se alguém abrisse de repente uma caixa antiga, dessas guardadas no alto do armário. Vieram os cheiros, as vozes, o eco do violão, o frio da noite curitibana, o palco iluminado do Guairão, a plateia em êxtase. Um redemoinho de memórias.

A morte, às vezes, não leva apenas uma pessoa. Leva junto um tempo inteiro. Leva a versão que fomos ao lado dela. O Luiz galã, o compositor, o diretor de grupo de teatro, o anfitrião de casa cheia – todos eles voltaram hoje, atravessando as décadas, para me lembrar que fomos jovens e acreditamos.

E talvez seja isso o que reste: acreditar ainda. Que aquele tempo não foi em vão. Que as canções continuam vibrando em algum lugar. Que o teatro segue ecoando. Que o rapaz bonito de violão na mão permanece, eterno, na plateia da memória.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2024

Um comentário sobre “Luiz de Nadai e o Dia em que a Juventude Morreu um Pouco

  1. Meu coração também voltou no tempo querido Ivam e estou como você, saudosa de uma época, saudosa do Lu, nosso amado Lu. ❤️Estou também com o coração partido. Vou amar o Lu pra sempre.

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