LETRAMENTO | Renda-se: quando a fúria se veste de silêncio

Ontem fazia um frio danado em São Paulo. Sair de casa exigia um pequeno heroísmo. Foi assim que cheguei ao Sesc Ipiranga para assistir à última sessão de “Renda-se”, texto da britânica Sophie Swithinbank, interpretado por Martha Nowill e dirigido, com precisão e risco, por Fernanda D’Umbra. Uma daquelas experiências raras que continuam a nos habitar muito depois do aplauso.

Dentro do teatro, o frio não cedeu. Pelo contrário. Veio como um vento gelado, desses que nos obrigam a lembrar do próprio corpo.

Soube pela diretora que a peça é, ao mesmo tempo, resposta e afronta a “A Megera Domada”, de Shakespeare. Um acerto de contas com o destino imposto às mulheres pelo bardo inglês. Se, no século XVI, a mulher “indomada” precisava se dobrar ao jugo masculino, aqui a dobra é outra. Uma mulher, mãe, curva-se a uma dor insuportável, inexplicável, que nem o cárcere consegue conter. Presa pelo desaparecimento do próprio bebê, ela se debate entre a culpa que a sociedade lhe impõe e a fúria que brota como lava dentro dela.

A montagem inglesa de “Renda-se”, apresentada no Festival de Edimburgo no ano passado sob o título “Surrender”, recebeu críticas elogiosas tanto pelo texto quanto pela interpretação de Phoebe Ladenburg.

Agora, Marta Nowill, sozinha em cena, dá corpo a essa mulher como raramente se vê no teatro contemporâneo. Martha é, aliás, uma das nossas maiores atrizes. Aqui, mergulha radicalmente numa alma dilacerada, oscilando entre a sutileza – um silêncio carregado de história, um olhar que fere – e as explosões de raiva e desespero com uma naturalidade desconcertante. Não há truque nem histrionismo. Há uma atriz madura, no auge de sua força, sustentando uma das grandes interpretações do ano.

Fernanda D’Umbra, com sua direção firme e nada condescendente, constrói um espaço onde Martha pode respirar e incendiar-se. O minimalismo do cenário, assinado por Diego Dac, a delicadeza da luz de Paloma Dantas e o figurino de Ofélia Lott ampliam cada respiração, cada hesitação. Já a trilha sonora de Sergio Arara, discreta e indispensável, costura a narrativa com tensão e leveza. Não ilustra, mas comenta, questiona e afia.

No fim, “Renda-se” não se trata apenas de responder a Shakespeare. É também uma resposta ao hábito de julgar, de oprimir a mulher, de sufocar suas dores em silêncio. Para nós, homens, sobretudo, a peça é um exercício de letramento. Um aprendizado necessário para decifrar uma linguagem de dor, fúria e resistência que tantas vezes escolhemos não ouvir. Ela nos lembra que, às vezes, render-se não é desistir, mas encontrar outra forma de permanecer de pé, mesmo quando o chão se parte.

E, ao sair do teatro, o frio se intensificou. No peito, um eco persistente, feito aviso, feito ferida, feito poesia, chamando-nos a olhar, de verdade, para as mulheres que a história tentou calar.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 1908

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