Espetáculo ‘Quase Todos’ leva aos palcos debate sobre o uso político das lembranças com empresa que oferece chance de pessoas viverem experiências de todos os tipos
São paulo Memórias estão à venda. Os compradores querem experiências exclusivas e sensações que nunca sentiram antes. Os vendedores, por sua vez, estão dispostos a garantir a satisfação de seus clientes. Por isso, esses profissionais fazem atividades que os contratantes não podem realizar por motivos físicos ou emocionais. Depois, narram a eles o que sentiram de forma minuciosa. Desde o frio na barriga durante um salto de paraquedas até o prazer provocado por uma relação sexual.
Parece roteiro de filme, mas é um caso real descoberto por artistas da companhia teatral Os Satyros, em 2014. À época, a trupe esbarrou em um grupo de São Paulo que contratava pessoas para que elas tivessem determinadas experiências e narrassem depois como foram esses momentos. Era uma forma de amenizar o isolamento causado pela velhice ou por problemas de locomoção.
Esse sistema de compra e venda de memórias inspira a peça “Quase Todos”, em cartaz no Sesc 24 de Maio, na capital paulista. Escrita por Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, fundadores dos Satyros, o espetáculo apresenta ao público a Calínia Corporation, empresa especializada em comercializar memórias. O empreendimento foi criado por Jacinto, personagem de Diego Rifer. “Memória não é só lembrança. É dinheiro, ativo, capital”, diz o empresário na encenação.
Para conceber o texto, García Vázquez diz ter estudado os diferentes aspectos que compõem as recordações. “Busquei entender como elas são construídas e manipuladas, por motivos pessoais ou por interesses políticos.”
Na peça, um político recorre à empresa para manipular a memória dos eleitores. “Jair Bolsonaro, por exemplo, quis reconstruir a lembrança sobre a ditadura, dizendo que ela nos salvou. Essa é uma narrativa feita a partir de memórias”, diz o dramaturgo.
Grandes corporações de tecnologia também instrumentalizam a memória, como as redes sociais que lembram as pessoas o que elas estavam fazendo anos atrás. “A gente vende praticamente a preço de banana as nossas memórias para empresas como X e Facebook”. Hoje, há quem comercialize os próprios dados para que empresas treinem ferramentas de inteligência artificial.
O espetáculo, aliás, fez uso de IA para conceber a trilha sonora e o jogo de luzes, formado por lasers que criam uma atmosfera futurista. A presença da tecnologia contrasta com o caráter manual das flores de crochê presentes nas roupas dos personagens. São trajes que misturam itens contemporâneos a elementos que remetem às décadas de 1960 e 1970 —período no qual se passa a primeira parte da produção.
Ao lado dos quatro irmãos, Jacinto cresceu num lar marcado por pobreza e violência. Em uma cena, vemos as irmãs dele escondidas em um quarto, rezando para que o pai pare de agredir a mãe, personagem de Márcia Daylin.
Em um outro momento, ela decide servir às crianças pétalas de flores para suprir a ausência de alimentos na geladeira, propondo um faz de conta para mascarar a fome. Essa história foi inspirada na infância de Ivam Cabral, que assina a dramaturgia do espetáculo ao lado de García Vázquez.
Não foi só Cabral que emprestou memórias para compor a narrativa. Os outros atores também veem na peça experiências que eles viveram em suas vidas. “Muitos de nós passamos por situações parecidas e próximas daquilo que a peça retrata”, diz Cabral. Para ele, recorrer ao drama familiar foi uma forma de tornar mais palatável um enredo de contornos distópicos.
“A gente queria pôr muita humanidade na história para mais tarde introduzir a venda de memórias”, diz ele. Ao jogar luz sobre um núcleo familiar, a encenação reflete também sobre o esgarçamento das relações entre pais e filhos. “Para mim, isso tem a ver com esse momento marcado pelo isolamento”, afirma Cabral.
Isso fica evidente quando a matriarca da família morre tendo ao lado apenas um de seus quatro filhos. Afastados, eles descobrem sobre a morte pelas redes. “A solidão contemporânea não é mais a ausência de contato. É o excesso de mediação. Tudo está sendo transmitido via rede social.”
Quase Todos
direção Rodolfo García Vázquez. Autoria Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez. com Ivam Cabral, Julia Bobrow, Diego Rifer. onde Sesc 24 de Maio – r. 24 de Maio, 109, São Paulo. quando Qui. a sex., às 20h; dom., às 18h. Até 12 de abril. classificação 14 anos.
Preço R$ 50, à venda no site sescsp.org.br
Fonte: Folha de S.Paulo
