FOLHA DE S.PAULO | Os Saty­ros ence­nam mundo dis­tó­pico em que a memó­ria é mera mer­ca­do­ria

Espe­tá­culo ‘Quase Todos’ leva aos pal­cos debate sobre o uso polí­tico das lem­bran­ças com empresa que ofe­rece chance de pes­soas vive­rem expe­ri­ên­cias de todos os tipos

 

Matheus Rocha
03 abril 2026

São paulo Memó­rias estão à venda. Os com­pra­do­res que­rem expe­ri­ên­cias exclu­si­vas e sen­sa­ções que nunca sen­ti­ram antes. Os ven­de­do­res, por sua vez, estão dis­pos­tos a garan­tir a satis­fa­ção de seus cli­en­tes. Por isso, esses pro­fis­si­o­nais fazem ati­vi­da­des que os con­tra­tan­tes não podem rea­li­zar por moti­vos físi­cos ou emo­ci­o­nais. Depois, nar­ram a eles o que sen­ti­ram de forma minu­ci­osa. Desde o frio na bar­riga durante um salto de para­que­das até o pra­zer pro­vo­cado por uma rela­ção sexual.

Parece roteiro de filme, mas é um caso real des­co­berto por artis­tas da com­pa­nhia tea­tral Os Saty­ros, em 2014. À época, a trupe esbar­rou em um grupo de São Paulo que con­tra­tava pes­soas para que elas tives­sem deter­mi­na­das expe­ri­ên­cias e nar­ras­sem depois como foram esses momen­tos. Era uma forma de ame­ni­zar o iso­la­mento cau­sado pela velhice ou por pro­ble­mas de loco­mo­ção.

Esse sis­tema de com­pra e venda de memó­rias ins­pira a peça “Quase Todos”, em car­taz no Sesc 24 de Maio, na capi­tal pau­lista. Escrita por Ivam Cabral e Rodolfo Gar­cía Váz­quez, fun­da­do­res dos Saty­ros, o espe­tá­culo apre­senta ao público a Calí­nia Cor­po­ra­tion, empresa espe­ci­a­li­zada em comer­ci­a­li­zar memó­rias. O empre­en­di­mento foi cri­ado por Jacinto, per­so­na­gem de Diego Rifer. “Memó­ria não é só lem­brança. É dinheiro, ativo, capi­tal”, diz o empre­sá­rio na ence­na­ção.

Para con­ce­ber o texto, Gar­cía Váz­quez diz ter estu­dado os dife­ren­tes aspec­tos que com­põem as recor­da­ções. “Bus­quei enten­der como elas são cons­tru­í­das e mani­pu­la­das, por moti­vos pes­so­ais ou por inte­res­ses polí­ti­cos.”

Na peça, um polí­tico recorre à empresa para mani­pu­lar a memó­ria dos elei­to­res. “Jair Bol­so­naro, por exem­plo, quis recons­truir a lem­brança sobre a dita­dura, dizendo que ela nos sal­vou. Essa é uma nar­ra­tiva feita a par­tir de memó­rias”, diz o dra­ma­turgo.

Gran­des cor­po­ra­ções de tec­no­lo­gia tam­bém ins­tru­men­ta­li­zam a memó­ria, como as redes soci­ais que lem­bram as pes­soas o que elas esta­vam fazendo anos atrás. “A gente vende pra­ti­ca­mente a preço de banana as nos­sas memó­rias para empre­sas como X e Face­book”. Hoje, há quem comer­ci­a­lize os pró­prios dados para que empre­sas trei­nem fer­ra­men­tas de inte­li­gên­cia arti­fi­cial.

O espe­tá­culo, aliás, fez uso de IA para con­ce­ber a tri­lha sonora e o jogo de luzes, for­mado por lasers que criam uma atmos­fera futu­rista. A pre­sença da tec­no­lo­gia con­trasta com o cará­ter manual das flo­res de cro­chê pre­sen­tes nas rou­pas dos per­so­na­gens. São tra­jes que mis­tu­ram itens con­tem­po­râ­neos a ele­men­tos que reme­tem às déca­das de 1960 e 1970 —perí­odo no qual se passa a pri­meira parte da pro­du­ção.

Ao lado dos qua­tro irmãos, Jacinto cres­ceu num lar mar­cado por pobreza e vio­lên­cia. Em uma cena, vemos as irmãs dele escon­di­das em um quarto, rezando para que o pai pare de agre­dir a mãe, per­so­na­gem de Már­cia Day­lin.

Em um outro momento, ela decide ser­vir às cri­an­ças péta­las de flo­res para suprir a ausên­cia de ali­men­tos na gela­deira, pro­pondo um faz de conta para mas­ca­rar a fome. Essa his­tó­ria foi ins­pi­rada na infân­cia de Ivam Cabral, que assina a dra­ma­tur­gia do espe­tá­culo ao lado de Gar­cía Váz­quez.

Não foi só Cabral que empres­tou memó­rias para com­por a nar­ra­tiva. Os outros ato­res tam­bém veem na peça expe­ri­ên­cias que eles vive­ram em suas vidas. “Mui­tos de nós pas­sa­mos por situ­a­ções pare­ci­das e pró­xi­mas daquilo que a peça retrata”, diz Cabral. Para ele, recor­rer ao drama fami­liar foi uma forma de tor­nar mais pala­tá­vel um enredo de con­tor­nos dis­tó­pi­cos.

“A gente que­ria pôr muita huma­ni­dade na his­tó­ria para mais tarde intro­du­zir a venda de memó­rias”, diz ele. Ao jogar luz sobre um núcleo fami­liar, a ence­na­ção reflete tam­bém sobre o esgar­ça­mento das rela­ções entre pais e filhos. “Para mim, isso tem a ver com esse momento mar­cado pelo iso­la­mento”, afirma Cabral.

Isso fica evi­dente quando a matri­arca da famí­lia morre tendo ao lado ape­nas um de seus qua­tro filhos. Afas­ta­dos, eles des­co­brem sobre a morte pelas redes. “A soli­dão con­tem­po­râ­nea não é mais a ausên­cia de con­tato. É o excesso de medi­a­ção. Tudo está sendo trans­mi­tido via rede social.”

 

Quase Todos

dire­ção Rodolfo Gar­cía Váz­quez. Auto­ria Ivam Cabral e Rodolfo Gar­cía Váz­quez. com Ivam Cabral, Julia Bobrow, Diego Rifer. onde Sesc 24 de Maio – r. 24 de Maio, 109, São Paulo. quando Qui. a sex., às 20h; dom., às 18h. Até 12 de abril. clas­si­fi­ca­ção 14 anos.

Preço R$ 50, à venda no site sescsp.org.br

 

Fonte: Folha de S.Paulo

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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