Ribeirão Claro sempre foi, para mim, um lugar onde o mundo cabe inteiro dentro de sua rua principal. Cidade onde se nasce é isso. Um nome que a gente pronuncia com ternura, como quem guarda um segredo. De repente, porém, o segredo ganhou megafone. Minha pequena Ribeirão Claro atravessou fronteiras e passou a circular nos noticiários, no vaivém nervoso das manchetes.
O motivo é que ali existe o Resort Tayayá, empreendimento concebido pela família Tofoli, plantado como promessa de descanso numa região que sempre soube acolher. Dias Toffoli é nome conhecido na cidade. Cidadão honorário ribeirãoclarense, homenageado pela prefeitura, figura que muitos aprenderam a reconhecer antes mesmo de aprender a ler jornal. Para nós, ele sempre foi quase um herói. Para o país, um personagem central da República, com passagens pela Supremo Tribunal Federal, pelo Conselho Nacional de Justiça e pelo Tribunal Superior Eleitoral, além da Advocacia-Geral da União.
O motivo: Ribeirão Claro mora numa dobra privilegiada do mapa, na fronteira líquida entre Paraná e São Paulo, dentro do que se convencionou chamar de Angra Doce, com uma infinidade de rios e cachoeiras. Água larga, morros atentos, vento que convida. Trekking, escalada, mountain bike; rafting, canoagem, mergulho. Parapente, asa-delta. A cidade sempre foi um corpo em movimento, mesmo quando o país parecia parado.
O que mudou foi o foco da câmera. Nos últimos tempos, reportagens passaram a narrar transformações no controle do Tayayá: uma fase de associação com um fundo de investimento, relações empresariais envolvendo familiares do ministro e o empresário Daniel Vorcaro, e, mais recentemente, a mudança de controle por um advogado ligado à JBS. Tudo isso chegou ao público como notícia, hipótese, investigação em curso. Palavras que pedem cuidado e silêncio atento. Há menções a apurações jornalísticas sobre possíveis irregularidades financeiras. Há, sobretudo, a necessidade de que os fatos sejam plenamente esclarecidos pelas instâncias competentes.
E então minha cidade, que sempre coube numa lembrança, passou a caber num debate. Ribeirão Claro ficou famosa. Não pela paisagem, que nunca precisou de manchete, mas pela colisão entre o íntimo e o institucional. É estranho ver o lugar onde a gente aprendeu a nadar aparecer em idiomas que não falam do rio, e sim de poder. Ainda assim, sigo acreditando que a verdade também é um esporte de fôlego. Exige paciência, método, tempo.
Enquanto isso, o sol continua se pondo do mesmo jeito sobre a represa. A água segue ensinando que tudo passa, mas deixa marcas. E eu aprendo, mais uma vez, que cidades pequenas não são pequenas. Apenas aguardam o instante em que o mundo decide prestar atenção nelas.
