Entre encontros e despedidas

Saí de casa hoje cedo para uma consulta com a minha endocrinologista. Vinte anos de acompanhamento. Vinte anos de pequenas conversas, ajustes, exames, silêncios partilhados. Sou assim: alguém que permanece. Guardo amizades da infância, da faculdade, do trabalho. Relações longas, como árvores que vão criando raízes invisíveis sob o solo do tempo. Talvez seja esse o meu jeito de cuidar da vida: não deixar que ela passe rápido demais, dar a ela alguma espessura.

Chamei um Uber. Santana fica longe do centro, mas distância nunca foi problema para mim quando a relação vale a pena. Há deslocamentos que são, no fundo, gestos de afeto.

A motorista se chamava Lilian. Advogada, recém-separada, mãe de uma menina de seis anos. Começou a dirigir depois que a vida, de repente, desmoronou, quando descobriu que o marido tinha uma outra família. Não era apenas uma traição. Era uma vida paralela, inteira, organizada, com filhos, rotinas, histórias. Um mundo escondido dentro de outro.

Ela me contou tudo. Com uma honestidade quase desesperada, como se falar fosse a única forma de não se afogar. Trabalha quinze horas por dia, dividida entre o escritório e o carro. Sem folga, nem mesmo aos fins de semana. Ainda assim, encontra tempo para levar e buscar a filha na escola. O ex-marido foi embora para Portugal com a outra família: dois filhos pequenos, uma vida agora oficializada. E ela ali, tentando reorganizar os próprios pedaços.

Disse que nunca desconfiou. Ele trabalhava no interior durante a semana e voltava nos fins de semana. Um roteiro plausível. Um álibi perfeito. Mas a outra mulher sabia. Sabia que havia uma esposa, uma filha. Isso, talvez, seja o que mais dilacera: não apenas a mentira, mas a consciência da outra mulher.

Enquanto ela falava, algo em mim ia se abrindo. Uma mistura de compaixão, indignação, impotência. Desci do carro com a sensação de carregar um pouco daquela dor comigo. Como se, por alguns minutos, nossas vidas tivessem se entrelaçado de maneira irreversível.

Na volta, outro carro. Outro mundo.

Um rapaz jovem, talvez vinte e cinco anos. Bonito, mas com um olhar distante, como se estivesse sempre alguns passos atrás de si mesmo. Tentei puxar conversa – banalidades, pequenos gestos de aproximação. Ele respondeu com educação, mas sem abertura. Havia um limite ali, nítido, que não cabia a mim atravessar.

Então entendi: nem todo encontro quer ser encontro.

Cheguei em casa com uma estranha sensação de vazio. Não sei o nome dele. Não sei de onde vinha aquela tristeza. Não sei que história habitava aquele silêncio. E, no entanto, fiquei pensando: o que poderia ter acontecido se ele tivesse falado? O que eu poderia ter ouvido? O que, talvez, tivesse mudado em mim – ou nele?

Há algo de profundamente humano nesses cruzamentos breves. Pessoas que entram na nossa vida por minutos e, ainda assim, deixam marcas. Pequenas fissuras por onde o mundo se infiltra. Aprendo tanto com esses encontros. Às vezes mais do que com relações longas. Porque ali não há passado, nem expectativa. Há apenas a possibilidade.

Mas também há o limite. O instante em que o outro não quer – ou não pode – ser atravessado.

E então volto para o que sou. Alguém de vínculos longos, de histórias que se acumulam, de presenças que resistem ao tempo. Mas talvez viver seja justamente isso. Sustentar as relações que nos constroem ao longo dos anos e, ao mesmo tempo, permanecer disponível para aquilo que ainda não conhecemos.

Cuidar do que fica, sem fechar a porta para o que passa.

Porque, no fundo, a vida não acontece apenas nas raízes profundas que criamos, mas também nesses encontros passageiros, onde, por um breve instante, alguém poderia ter sido – e não foi – uma história importante dentro da nossa.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2034

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