A minha geração cresceu olhando para trás, para os anos 1960, como quem observa um farol aceso no meio da neblina. Não éramos exatamente filhos daquele tempo, mas pegamos carona nele. Herdamos o grito pela liberdade, o desejo quase físico de viver sem amarras, de experimentar o mundo, os corpos, as ideias, as identidades.
Queríamos ser livres. Acima de tudo.
Mas a história, como sempre, tem o estranho hábito de colocar pedágios no meio do caminho. No nosso caso, um deles se chamou AIDS. De repente, a liberdade encontrou um limite inesperado. O corpo, que parecia território aberto, passou a exigir cuidado, cálculo, proteção. A camisinha se tornou uma espécie de metáfora da época. Continuávamos desejando o mundo, mas o mundo agora vinha acompanhado de uma vigilância silenciosa.
Nossa liberdade era real. Mas era também negociada com o tempo em que vivíamos.
Ainda assim, lutávamos. Lutávamos pela possibilidade de sermos quem éramos. De amar quem quiséssemos amar. De existir sem pedir licença.
Hoje, olhando para as novas gerações, percebo algo curioso. Muitas das impossibilidades que enfrentamos foram absorvidas, metabolizadas, transformadas em novas linguagens políticas. Isso é bonito. É necessário. As lutas identitárias trouxeram à luz violências históricas que durante séculos permaneceram invisíveis ou naturalizadas.
As leis que criminalizam o racismo, a homofobia e outras formas de opressão são conquistas civilizatórias. São marcos fundamentais. Não há dúvida quanto a isso.
Mas existe outra camada da vida social que tem me causado certo desconforto. Não sei ainda nomeá-la com precisão, mas talvez tenha algo a ver com a centralidade que a punição passou a ocupar em muitos debates públicos.
Às vezes parece que nos tornamos uma sociedade muito rápida em erguer tribunais, mas muito lenta em construir pontes.
Conversar, por exemplo, tornou-se uma tarefa estranhamente árdua. Abrir espaço para falar de problemas, escutar o outro, deslocar-se minimamente do próprio ponto de vista… Tudo isso exige uma flexibilidade que parece cada vez mais rara. Não se trata de abandonar convicções, nem de relativizar injustiças. Trata-se de algo mais delicado: a capacidade de habitar as brechas.
As brechas são lugares instáveis. Não são confortáveis. Ali não sabemos exatamente quem tem razão. E talvez ninguém tenha razão completamente
Mas é justamente ali que o pensamento acontece.
Cada ponto de vista é apenas um fragmento de mundo. Um recorte. Um ângulo da realidade. O problema começa quando nos agarramos a esse fragmento como se ele fosse o todo, defendendo-o com fervor quase religioso. Basta observar a política, a religião ou mesmo o futebol. Escolhemos um lado e imediatamente o outro se torna suspeito.
Assim nascem os muros.
A psicanálise já nos alertou sobre esse fenômeno há mais de um século. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, Freud descreveu como o sujeito, ao se fundir numa massa, perde parte de sua singularidade e passa a operar segundo uma lógica gregária. O desejo de pertencimento, tão profundamente humano, pode nos levar a abdicar da própria complexidade.
O indivíduo, isolado, talvez seja capaz de nuances. Na massa, ele se simplifica. Às vezes se brutaliza.
Vimos isso acontecer muitas vezes nos últimos anos. Pessoas inteligentes, sensíveis, generosas em sua vida cotidiana, de repente repetindo slogans com uma fúria quase automática. Não importa se a massa se organiza à direita ou à esquerda, o mecanismo psíquico é o mesmo. O pensamento crítico se dissolve. A dúvida desaparece. O outro se torna inimigo.
Freud descreveu esse processo com uma precisão quase assustadora. Ao se fundir à massa, o indivíduo experimenta uma diminuição de sua capacidade intelectual e torna-se capaz de atitudes que, sozinho, talvez jamais tomasse.
Talvez aqueles parentes distantes que enviam correntes delirantes no WhatsApp não sejam essencialmente intolerantes. Talvez estejam apenas capturadas por uma bolha emocional que amplifica medos e certezas.
Os movimentos de massa precisam dessas bolhas para sobreviver. Dentro delas, o mundo parece simples. Fora delas, ele volta a ser complexo. E a complexidade dá trabalho.
Talvez seja isso que me inquieta hoje. Não a luta por direitos, que é absolutamente necessária e legítima. Mas a sensação de que, em muitos casos, estamos trocando a difícil arte da convivência pela satisfação imediata da punição pública.
Punir é rápido. Compreender é lento.
Punir dá sensação de justiça. Compreender exige atravessar ambiguidades.
E viver, no fundo, talvez seja justamente isso: aprender a suportar a ambiguidade. Nem o silêncio absoluto, nem o discurso inflamado resolvem tudo. A vida acontece nesse espaço intermediário onde as certezas vacilam e as perguntas permanecem abertas.
A liberdade que minha geração desejava talvez fosse isso: a possibilidade de existir nesse território imperfeito, onde as pessoas erram, aprendem, mudam, conversam, discordam, mas continuam tentando.
Porque, no fim das contas, a verdadeira pluralidade não nasce quando todos concordam conosco.
Ela nasce quando ainda conseguimos conversar com quem não concorda.
