Ela se chama Emília. Tem vinte e um anos – essa idade em que tudo ainda está por acontecer, mas, curiosamente, algumas coisas já parecem vir prontas, como se tivessem atravessado gerações para pousar, intactas, nas mãos de alguém.
Chegou ao Satyros pelas mãos do Mateus Araújo, desses amigos que a gente chama de “mais queridos” não por hábito, mas por precisão. Ele me procurou um dia, com a delicadeza de quem pede pouco e, ao mesmo tempo, oferece muito: um estágio em figurino para a filha de uma amiga. Era um pedido simples. E, como tantas coisas simples, carregava dentro de si uma espécie de destino silencioso.
Coincidentemente – ou talvez não – estávamos iniciando o processo de criação de cenários e figurinos de “Quase Todos”, nossa peça que estreou nesta semana. Havia espaço. Sempre há, quando algo precisa acontecer.
Emília chegou tímida. Dessas presenças que não se anunciam, que preferem escutar antes de ocupar qualquer lugar. No início, era apenas mais uma jovem tentando encontrar seu gesto dentro de um coletivo já em movimento. Nada indicava, ainda, o que viria.
Até que, em um de seus primeiros dias, ela apareceu nos ensaios com uma blusa de crochê.
Foi o Rodolfo, nosso diretor, quem percebeu. Há olhares que reconhecem antes mesmo de compreender. Perguntou sobre a peça, e Emília, com a naturalidade de quem não sabe o tamanho do próprio gesto, respondeu que havia sido ela quem a fizera.
Há respostas que mudam a direção das coisas.
Gustavo Parreira – um dos nossos figurinistas – atento, acrescentou que ela fazia pequenas flores. Flores de crochê. E, nesse instante, algo se abriu. Como se o próprio processo tivesse encontrado uma fresta por onde respirar.
“E se bordarmos os figurinos da peça com as florezinhas da Emília?”
A pergunta do Rodolfo não era exatamente uma pergunta. Era uma intuição em estado bruto. Elisa Barboza e Jota que, ao lado de Gustavo, também assinam os figurinos da peça, compreenderam imediatamente. Há momentos em que a criação não precisa de convencimento, apenas de escuta.
E então aconteceu.
As flores começaram a surgir. Primeiro discretas, quase como quem pede licença. Depois, insistentes. Multiplicaram-se. Espalharam-se pelos figurinos, atravessaram as cenas, infiltraram-se na luz, alcançaram o cenário, tocaram a própria identidade visual do espetáculo.
De repente, havia flores por toda parte. Centenas delas.
Pequenas, delicadas, feitas à mão – uma a uma – como quem insiste em afirmar que ainda é possível construir beleza com tempo, com paciência, com repetição amorosa de um gesto.
E o que era, no início, apenas um estágio, transformou-se em outra coisa. Uma espécie de intervenção silenciosa. Uma jovem trazendo, sem alarde, um modo de existir dentro do trabalho.
Emília não apenas fez figurinos. Ela afetou o espaço.
Há pessoas que chegam e ocupam um lugar. Outras chegam e deslocam o eixo do que parecia dado. Não por força, não por imposição, mas por uma delicadeza radical, quase subversiva.
Penso que há algo profundamente político nisso: bordar flores em um mundo que, tantas vezes, insiste na dureza. Insistir no detalhe quando tudo parece pedir velocidade. Escolher o cuidado como linguagem.
Talvez seja isso que tenha acontecido conosco.
Enquanto montávamos uma peça atravessada por tantas ausências, por tantas faltas – “Quase Todos” –, uma menina de vinte e um anos começou a costurar presenças.
E, sem que percebêssemos de imediato, o que era figurino virou gesto. O que era detalhe virou discurso. O que era estágio virou marca.
Há processos que nos transformam porque são grandiosos. Outros, como esse, porque são delicados demais para serem ignorados.
E é bonito – profundamente bonito – perceber que, no meio de tudo, alguém ainda chega trazendo flores.
Obrigado, Emília.
