CRÔNICA | Uma pedagogia do Amparo

As melhores pessoas que conheço nesta vida são mulheres. Não como elogio moral, mas como constatação política. Aprendi cedo que quem sustenta a vida raramente ocupa o lugar do poder formal. E quase nunca recebe crédito por isso.

Na minha casa, as mulheres eram minoria numérica – duas irmãs diante de três irmãos –, mas maioria absoluta na condução do mundo. Eram elas que decidiam o que se comia, o que se vestia, o que se plantava, o que se esperava do amanhã. Meu pai, durante parte da minha infância, acreditou que ele era o esteio. Era uma ficção social funcional, dessas que organizam o patriarcado. Na prática, quem garantia a sobrevivência era minha mãe e sua máquina de costura. Enquanto a agulha atravessava o tecido, atravessava também uma economia inteira. Trabalho invisível, inteligência cotidiana, gestão da escassez. A máquina não produzia apenas roupas. Produzia tempo, comida, continuidade.

Na escola, a repetição era didática. No primário, no catecismo, na cruzada eucarística: só mulheres. Eram elas que ensinavam a ler, a contar, a esperar, a pedir perdão, a rezar. Ensinaram também, sem nomear, que autoridade não precisa gritar para existir. Que há uma pedagogia do cuidado que organiza o mundo enquanto o discurso oficial celebra a força, a virilidade e a competição.

Desde criança, preferi as amizades femininas. Não por recusa consciente do masculino, mas por reconhecimento de uma violência estrutural que nunca me pareceu natural. O universo masculino sempre me soou tosco, excessivamente comprometido com uma estética da brutalidade. Uma pedagogia da dureza que confunde força com dominação e presença com ruído. A brutalidade masculina nunca me ofereceu abrigo. Foi, quase sempre, fator de desorganização psíquica e social. Isso tem custo. Produz medo, silenciamento, dissociação. Até hoje esse material retorna. Não como queixa, mas como trabalho, nas sessões de análise.

Quando saí de casa, lá atrás, repeti o gesto aprendido. Me apoiei nas mulheres. Não porque fossem mais “boas”, mas porque ali reconhecia uma ética relacional menos comprometida com a hierarquia e mais afinada com a sustentação da vida. Até hoje me impressiona a dificuldade que tenho em me indispor com mulheres. Não se trata de idealização. Trata-se de política íntima. Sei que o conflito, ali, não exige a aniquilação do outro.

Em 2025, essa lógica se intensificou. Fui cercado por mulheres. Sustentado por elas. Integrei uma coletiva formada inteiramente por mulheres, com exceção de mim. A Psicanálise nas Brechas é esse território onde clínica, política e pensamento crítico se encontram. Um espaço que recusa a neutralidade como farsa e entende o cuidado como prática insurgente. E no centro desse campo está Isildinha Baptista Nogueira, nossa mestra, nossa referência ética, nossa bússola. A Zizi.

Às vezes penso que nos reunimos ali para permanecer perto dela. Não é improvável. Há pessoas que transmitem teorias. Outras, transmitem posições éticas diante do mundo. Zizi pertence a essa segunda ordem. Sua presença ensina que pensar é também um ato de responsabilidade coletiva.

Neste ano, precisei entregar meu coração. Literalmente. Retirá-lo do peito e colocá-lo nas mãos de alguém. Como estratégia radical de sobrevivência. Num mundo que exige produtividade constante, resiliência performática e autossuficiência como virtude moral, entregar o coração é um gesto político. Recusar o colapso solitário. Admitir a dependência. Apostar no vínculo.

O ano foi pesado. Exigente. Cheio de fraturas. Zizi soube o que fazer. Não prometeu conserto. Não devolveu intacto. Sustentou. Colocou meu coração em seu próprio peito – metáfora imperfeita, mas necessária – e foi dali que, dia após dia, extraí força para continuar. Falamos todos os dias. Às vezes mais de uma vez por dia. Pequenas trocas, grandes efeitos. Nada espetacular. Tudo estrutural.

Talvez seja isso que as mulheres sempre tenham feito na minha vida. E na história. Sustentar enquanto o mundo, organizado pela lógica da força, ameaça ruir. Não por heroísmo, mas por método. Uma inteligência do cuidado que o capitalismo despreza, o patriarcado explora e a política institucional insiste em invisibilizar.

Sustentar a vida, afinal, nunca foi um gesto neutro. Sempre foi – e continua sendo – um ato profundamente político.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2007

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