Em “Garota do Momento”, novela que atualmente é exibida no horário das seis pela TV Globo, o Rio de Janeiro de 1958 é retratado como um lugar livre de racismo e homofobia. Nela, personagens negros estão integrados na sociedade; homossexuais circulam livremente sem dificuldade, expressando abertamente suas identidades. O amor, também, é tratado com uma liberdade que é anacrônica ao extremo: um casal adolescente descobre o sexo sem restrições morais ou sociais. Esta escolha narrativa tem sido vista por alguns como um esforço da emissora em fazer “reparação histórica” ao imaginar um Brasil mais inclusivo. Isso não resolve os problemas que precisam ser ouvidos, apenas os encobre.
Os anos 1950 no Brasil foram uma era de desigualdades extremas e conservadorismo social profundo. O racismo estrutural era predominante, seja através da marginalização econômica das pessoas negras ou da exclusão política do poder. A ascensão da classe média branca nos anos dourados da capital federal ocorreu às custas da marginalização da população negra e pobre, relegada a favelas, trabalho manual e informalidade. Igualdade não era uma palavra para este período, mas sim uma sociedade rigidamente estratificada e excludente.
Da mesma forma, a homossexualidade não era simplesmente vista como uma possibilidade de vida, mas como patológica, e reprimida por meio de violência psicológica e social. Quando pessoas queer não eram simplesmente ignoradas, a cultura popular os reduzia a uma fonte de zombaria ou caricatura. O risco de ser identificado como homossexual poderia resultar em demissão, exclusão familiar e até mesmo violência física, sem que houvesse qualquer amparo legal ou social — tudo isso sem qualquer proteção. Não tenho certeza se em 2025 tenhamos mudado tanto assim…
Isso nos leva à abordagem de “Garota do Momento”, que coloca o telespectador em uma mentalidade que abstrai perigosamente a realidade da história. Ao ficcionalizar um passado que foi mais progressivo do que realmente foi, a novela apresenta a ilusão de uma sociedade brasileira a um passo da igualdade quando essa igualdade estava — e ainda está — apenas em luta. Essa narrativa pode banalizar a turbulência histórica e a luta, de tal forma que gerações mais novas podem acabar subestimando as batalhas travadas por negros, mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ ao longo dos anos.
Isso não quer dizer que todas as novelas deveriam ser pontuadas com notas de rodapé históricas, mas como devemos ver o papel dramatúrgico na formação da memória coletiva? O entretenimento também pode funcionar como um meio de reflexão e para encorajar conversa e condenar injustiças. No entanto, ao escolher uma reconstrução adoçada do passado, corre-se o risco de esconder as feridas abertas do presente.
Então, se a intenção da novela era de fato a reparação histórica, este caminho não deu muito certo: em vez de expor os verdadeiros conflitos da época, de dar voz à resistência e de apontar as contradições de um país que, naquele momento, se anunciava como moderno, mas ainda não havia se livrado de estruturas profundamente conservadoras e discriminatórias. Para obter uma imagem o mais completa possível, livre de triunfalismo e negacionismo, de quanto avançamos e quanto ainda temos que percorrer, devemos enfrentar as verdades feias de nossa terra e nosso passado sem encobri-las com falso sentimento simplista.
Agora, justiça seja feita, acho “Garota do Momento” encantadora e tenho assistido compulsivamente aos episódios nos fins de semana, mas, perdoe-me, não é honesta com a história. E, sem honestidade, a verdadeira reparação permanece uma dívida pendente.
Essa novela é um desserviço para sociedade. Um povo que confunde o vilão de uma novela com o ator que o interpreta não tem capacidade de entender essa licença poética.