Existe uma diferença quase imperceptível – e talvez decisiva – entre o drama e o melodrama. Às vezes, ela não está no que se conta, mas no modo como se olha. No gesto que acompanha a dor. No silêncio que se permite permanecer. “Quase Todos”, à primeira vista, poderia ser facilmente confundido com um melodrama. […]
Quase todos os tempos
O tempo tem me atravessado de um jeito insistente. E eu ainda não sei exatamente o que fazer com isso. Não é uma tentativa de dominá-lo. Isso seria ingênuo. Mas de estabelecer com ele uma espécie de convivência possível. Quase um acordo silencioso. Porque o tempo, aprendi, não se deixa capturar. Ele atravessa. Talvez por […]
A delicada engenharia de ser homem
Uns anos atrás, durante uma sessão, um paciente meu, um homem de pouco mais de cinquenta anos, disse algo que ficou ecoando dentro de mim por muito tempo: “Acho que estou sem pinto.” Ele não falava do corpo, obviamente. A castração raramente acontece no corpo. Ela acontece, sobretudo, no narcisismo. Meu paciente cresceu à sombra […]
Entre a liberdade e o tribunal
A minha geração cresceu olhando para trás, para os anos 1960, como quem observa um farol aceso no meio da neblina. Não éramos exatamente filhos daquele tempo, mas pegamos carona nele. Herdamos o grito pela liberdade, o desejo quase físico de viver sem amarras, de experimentar o mundo, os corpos, as ideias, as identidades. […]
Entre o método e o afeto
Nota de abertura O texto que segue não propõe norma, não prescreve gesto clínico nem reivindica exemplaridade. Ele nasce de uma interrogação – e não de uma certeza – sobre os afetos que atravessam a experiência analítica. Sei que o tema pode causar ruídos, sobretudo em leituras mais literalizadas ou em tradições que apostam numa […]
PSICANÁLISE | Entre o sonho e a gratidão
Recebi, há algum tempo, um convite que me deixou genuinamente feliz. Fui chamado para escrever um artigo em um livro importante, cercado por psicanalistas que admiro profundamente. Gente que penso, leio, acompanho, respeito. O prefácio é de Marilena Chauí e a apresentação de Isildinha Baptista Nogueira. Vejam só o nível! Estar no meio desse pessoal […]
E POR FALAR EM SAUDADE | Todos os Sonhos que Ficam
A última vez que vi Contardo Calligaris foi no teatro. Não por acaso no teatro, mas porque ali eu acho que o tempo costuma se comportar de outro jeito. Foi numa apresentação do meu solo Todos os Sonhos do Mundo, no Espaço dos Satyros, nos últimos dias de 2020. Contardo chegou acompanhado de Maria Homem, […]
UMA PEQUENA CRÔNICA PARA TERMINAR O ANO | Antes que o Carnaval Anuncie a Alegria
𝐔𝐌𝐀 𝐏𝐄𝐐𝐔𝐄𝐍𝐀 𝐂𝐑𝐎̂𝐍𝐈𝐂𝐀 𝐏𝐀𝐑𝐀 𝐓𝐄𝐑𝐌𝐈𝐍𝐀𝐑 𝐎 𝐀𝐍𝐎 | 𝐀𝐧𝐭𝐞𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐨 𝐂𝐚𝐫𝐧𝐚𝐯𝐚𝐥 𝐀𝐧𝐮𝐧𝐜𝐢𝐞 𝐚 𝐀𝐥𝐞𝐠𝐫𝐢𝐚 Foi um ano de tempestades. Não apenas daquelas que dobram árvores, arrancam telhados e fazem a cidade parar por alguns minutos diante do espanto. Foi um ano de vendavais íntimos, desses que não aparecem no noticiário, mas deixam marcas mais […]
OPINIÃO | “A Máquina”: Quando o tempo vira memória
Rever A Máquina, de João Falcão, vinte e cinco anos depois é um gesto de memória. E, inevitavelmente, de análise. Porque algumas peças não envelhecem. Elas nos envelhecem, nos colocam de frente para o tempo que, inevitavelmente, passou por cima de nós. Vi A Máquina no Festival de Curitiba, 25 anos atrás. Tenho uma memória nítida daquele assombro. Havia uma brisa de ar fresco, leve e quase insolente soprando na cena brasileira. Uma peça que discutia amor, tempo, […]
CRÔNICA | Uma pedagogia do Amparo
As melhores pessoas que conheço nesta vida são mulheres. Não como elogio moral, mas como constatação política. Aprendi cedo que quem sustenta a vida raramente ocupa o lugar do poder formal. E quase nunca recebe crédito por isso. Na minha casa, as mulheres eram minoria numérica – duas irmãs diante de três irmãos –, mas […]
