Voltar ao palco é sempre uma espécie de retorno ao próprio corpo. Como se o tempo, que a gente imagina linear, de repente abrisse um pequeno atalho e nos colocasse novamente diante daquele primeiro impulso que nos fez subir a um palco pela primeira vez. Um retorno que nunca é completo. A gente sempre volta […]
Emília em combustão – o Sítio depois da inocência
A história do teatro brasileiro recente não pode ser contada sem o trabalho do Teatro da Vertigem. Desde os anos 1990, o grupo vem nos lembrando que o teatro não é apenas aquilo que se representa em cena, mas aquilo que se experimenta no corpo do espectador. Um espaço de fricção entre arte, política e […]
A Alma em Oferta – e a Internet que nos Esquadrinha
Acordei com o café ainda quente e o mundo já gritando na tela. Ontem à noite, o Fantástico havia exibido mais uma dessas reportagens indignadas, denunciando que as redes sociais, especialmente Facebook e Instagram, trabalham para viciar seus usuários, sobretudo adolescentes. A matéria tinha aquele tom de escândalo moral tardio, como se estivéssemos descobrindo agora que alguém, em algum lugar, deseja […]
O tempo que constrói a gente
Ontem me reuni com a turma matutina de Atuação da SP Escola Superior de Teatro. Existem encontros que não cabem numa agenda, simplesmente. Estou falando destes encontros que acontecem como quem abre o coração. Nestes, há sempre um misto de responsabilidade e esperança. Não era uma reunião burocrática. Antes, quase um rito. Durante noventa minutos, […]
Luiz de Nadai e o Dia em que a Juventude Morreu um Pouco
O Luiz de Nadai era o galã da nossa turma de Artes Cênicas, lá em meados dos anos 1980, em Curitiba. Mas não era apenas bonito – embora fosse. Havia nele uma espécie de luz natural; estava sempre sorrindo. Excelente ator, cantava, tocava violão, compunha. Namorava a Cláudia, linda, inteligente, dessas presenças igualmente luminosas. Os […]
Quando o corpo vira tragédia – Medea outra vez
Volto a falar de Medea de Sêneca porque a peça não terminou quando as luzes se apagaram. Ela continua reverberando por aqui. E, na reverberação, percebi duas ausências na minha leitura anterior. Já havia falado de Rosana Stavis, de Mariana Muniz e da participação especial de Walderez de Barros – três presenças centrais, três forças que sustentam o eixo trágico da montagem. […]
Medea em estado puro
Assisti ontem, no Sesc Consolação, a Medea de Sêneca. Saí em silêncio. Este trabalho não dá pra aplaudir de imediato. Pede travessia, distanciamento, silêncio. E pede tempo também. E, talvez até, alguma coragem. O mito é antigo. Em Eurípides, Medeia é urgência. Carne viva. A tragédia é construída como quem arma um arco: cada gesto tensiona o inevitável. […]
𝐎 𝐚𝐦𝐨𝐫 𝐭𝐚𝐦𝐛𝐞́𝐦 𝐭𝐞𝐦 𝐩𝐫𝐨𝐧𝐭𝐮𝐚́𝐫𝐢𝐨
Nem todo trabalho se mede pelo que é feito, mas pelo modo como alguém permanece. Há quem cuide cumprindo tarefas. E há quem cuide ficando, escutando, sustentando presença. A diferença aparece quando o afeto entra em cena. Durante muito tempo, meus bichos foram cuidados no Pet Care. Não sem ambivalência. Havia ali profissionais muito competentes, […]
O dia em que o sonho virou faculdade
O tempo não pede licença. Ele chega, se senta à mesa e decide. Às vezes demora, às vezes parece esquecido, mas quando resolve agir, age com uma elegância quase insolente. É assim que me sinto agora, olhando para a SP Escola de Teatro e percebendo, com um certo espanto sereno, que ela se tornou faculdade. […]
Entre o método e o afeto
Nota de abertura O texto que segue não propõe norma, não prescreve gesto clínico nem reivindica exemplaridade. Ele nasce de uma interrogação – e não de uma certeza – sobre os afetos que atravessam a experiência analítica. Sei que o tema pode causar ruídos, sobretudo em leituras mais literalizadas ou em tradições que apostam numa […]
