Aquilo que nos chama de volta

O elevador descia como descem os dias – silencioso, obediente a um mecanismo que não se vê – quando um vizinho entrou falando ao celular. Me cumprimentou com um leve aceno de cabeça, desses que não interrompem o fluxo da vida.

E então, no curto intervalo entre um andar e outro, ouvi a frase que não era para mim, mas que, ainda assim, me atravessou inteiro:

“Vem logo para eu preparar a farofa que você gosta.”

Não ouvi mais nada. Nem era preciso.

Aquela frase abriu em mim uma porta antiga. Dessas que, uma vez escancaradas, já não se fecham. E, de repente, eu já não estava ali, entre espelhos e botões iluminados. Estava longe. Estava antes.

Lembrei da minha mãe.

Da precisão quase infalível com que ela sabia me chamar de volta ao mundo. Não por argumentos. Não por razões. Mas pelo estômago, esse território onde a memória se instala antes da linguagem.

Havia ali uma sabedoria que hoje me parece rara. A de saber que o amor também se diz pelo cheiro, pelo fogo, pelo tempo lento de um forno aceso.

“Vou comprar um quartinho de leitoa pra você.”

O “quartinho”, eu sabia, era uma quarta parte generosa do leitão. Mas o diminutivo carregava uma ternura desproporcional. Tornava tudo mais próximo, mais íntimo, mais inevitável.

Era um convite e, ao mesmo tempo, uma rendição. E como resistir?

Pouquíssimas pessoas no mundo sabem exatamente do que gostamos. Menos ainda sabem transformar isso em linguagem. Talvez porque seja um idioma em extinção. Um idioma que não se aprende, que se herda. Porque, no fundo, nunca foi apenas sobre comida.

Aquilo era rito. Era chamado. Era quase uma liturgia doméstica. Como se, ao aceitar aquele prato, eu aceitasse também um reencontro com algo maior. Com a infância, com a casa, com um lugar no mundo onde ainda éramos inteiros, protegidos do tempo.

Talvez fosse isso, afinal, que eu sentia, ainda sem conseguir nomear. Uma espécie de encontro com Deus que não vinha pelas palavras, nem pelos rituais formais, mas pela comida. Um Deus doméstico, silencioso, que se revelava no cheiro que tomava a casa, no calor do forno, no cuidado de quem prepara algo pensando exatamente em você. Como se o sagrado não estivesse nas alturas, mas ali, à mesa, servido em travessas simples, na repetição amorosa de gestos cotidianos. Comer, então, deixava de ser apenas necessidade e passava a ser comunhão. E, por alguns instantes, tudo fazia sentido – o mundo, a vida, a saudade, o amor – porque alguém, em algum lugar, havia pensado em você com a delicadeza de quem tempera o afeto antes de oferecê-lo.

Quando o elevador chegou ao térreo, precisei de alguns segundos para reaprender o presente. Quarta-feira, 18 de março de 2026. Seis e quarenta e cinco da manhã.

A cidade já em movimento, me esperando com suas urgências, suas listas, seus compromissos. E eu tenho 15 minutos para chegar ao meu consultório.

Mas esta semana é atípica. A estreia de Quase Todos se aproxima. Amanhã, as cortinas do Sesc 24 de Maio se abrem, e há ainda um mundo inteiro a aprender, a ajustar, a descobrir, a sustentar. O teatro exige de nós esse estado de presença. Inteira, tensa, atenta, cheia de viva.

E é curioso perceber como, dentro da própria peça, há uma cena tão intensa de memória afetiva ligada à comida, como se, de algum modo, ela já anunciasse aquele telefonema atravessado no elevador.

Mas, por um instante, tudo o que eu quis foi outra coisa.

Quis me sentar à mesa de um tempo que já não existe como antes.
Quis ouvir, mais uma vez, aquela voz me chamando de volta. Não para um compromisso, não para uma obrigação, mas para um prato que, no fundo, era apenas uma forma delicada de dizer:

“Volta. Aqui ainda é seu lugar.”

E talvez seja isso que mais nos desarma na vida. Não os grandes acontecimentos. Não as viradas espetaculares. Mas essas frases mínimas, ditas ao telefone, dentro de um elevador qualquer, numa manhã comum. Frases que, sem pedir licença, nos devolvem a quem fomos. E, sobretudo, ao lugar de onde, apesar de tudo, ainda somos.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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