ANÁLISE | A série ‘Adolescência”, uma encruzilhada sem sinalizações seguras

A série “Adolescência” nos apresenta Jamie (Owen Cooper), um garoto de 13 anos que já carrega uma falta enorme de amor, cuidado, respeito e qualquer sinal de um futuro promissor. Desde o primeiro episódio, fica claro que ele se encontra em uma espécie de “encruzilhada” — um lugar simbólico, onde precisa tomar decisões fundamentais sobre si mesmo e sobre o mundo ao seu redor, mas sem enxergar saídas claras.

No universo de Jamie, tudo grita: a escola grita, a prisão grita, as pessoas gritam. E tudo também falha: família, escola, polícia, educação. Os professores estão exaustos, a escola está em colapso, a sociedade está doente. Esse clima de barulho e deterioração revela o desamparo em que o garoto vive. É como se todas as instituições que deveriam sustentá-lo estivessem se desfazendo por dentro, incapazes de lhe estender a mão.

Sob uma ótica psicanalítica, a “encruzilhada” de Jamie traz à tona, dentre outros aspectos, o Complexo de Édipo. Embora Freud tenha afirmado que ele costuma se instaurar por volta dos três aos seis anos de idade, se compreendermos alguma flexibilidade nesse conceito — que pode se manifestar em diferentes momentos de dificuldade e decisão, ao longo de toda a vida — percebemos como essas “encruzilhadas” podem ressurgir na adolescência (e até em outras fases), não se limitando a um intervalo temporal específico.

Nesse sentido, a metáfora do “encontro na encruzilhada” não se resume a uma escolha entre “matar ou morrer”: ela retrata o instante em que o sujeito se depara com suas próprias faltas — o que deseja, o que teme, o que não possui —, e também com a lei e o cuidado que deveriam ampará-lo.

No caso de Jamie, essa encruzilhada se revela em meio a um abandono completo, sem qualquer figura que o proteja ou imponha limites nítidos. É como se ele estivesse à deriva, pressionado por inúmeras forças ao mesmo tempo, sem uma rota de fuga concreta. A ausência de um suporte mínimo — seja familiar, escolar ou institucional — intensifica ainda mais o seu conflito interno, já que não há uma base minimamente organizada que o ajude a encontrar soluções subjetivas para problemas tão profundos.

Conforme a história avança, fica evidente que essa travessia psíquica não se resolve só com o tempo ou por meio de explicações simplistas sobre um “Édipo mal resolvido”. A falta de amor, de cuidado e de perspectivas para o futuro obriga Jamie a inventar caminhos próprios, enquanto a sociedade deveria ter a responsabilidade de não deixá-lo sucumbir. Em última análise, “Adolescência” não só nos mostra o desespero de um garoto em crise, mas também escancara o quanto as estruturas sociais ao seu redor estão falhando. A série nos faz pensar sobre a urgência de criar uma rede de proteção, cuidado e reconhecimento para os mais jovens. Sem esse amparo, a encruzilhada de Jamie deixa de ser apenas uma escolha difícil e se transforma em um beco sem saída.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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