A última vez

Existe sempre uma última vez. Ainda que a gente não saiba disso quando ela acontece.

A última vez que eu havia criado uma personagem e sentido aquele frio elétrico atravessar o corpo antes de entrar em cena, foi em novembro de 2021. Estreávamos Aurora. Era, de certo modo, o espetáculo que nos trazia de volta do silêncio da pandemia, como se o teatro reaprendesse a respirar junto conosco.

Mas o tempo, às vezes, decide escrever sua própria dramaturgia.

Estreamos e, na semana seguinte, a peça precisou sair de cartaz. O elenco começou a adoecer. Não era mais Covid, eram os dias da Influenza, igualmente impiedosos. Voltamos à cena no início de 2022, com aquela obstinação quase infantil que o teatro nos ensina: cair, levantar, tentar outra vez. E novamente o espetáculo foi interrompido. Mais gripe. E, dessa vez também, a delicada internação de um ator, por razões que nada tinham a ver com a gripe, infelizmente.

Ainda assim resistimos o quanto foi possível. Chegamos a apresentar Aurora no Festival de Curitiba. Mas havia algo naquele tempo que parecia nos tratar com uma estranha severidade. Como se o mundo ainda estivesse aprendendo a permitir que as coisas voltassem a existir.

Assim, Aurora, que era um espetáculo tão bonito, despediu-se cedo demais dos palcos. Talvez tenha sido um dos trabalhos que menos tempo permaneceu em cartaz em toda a nossa trajetória.

Um dia ainda vou me debruçar sobre ele com mais calma. Sobre a sofisticação da dramaturgia, sobre o desenho de direção – impressionante – que criamos ali. Experimentávamos um teatro narrativo que fazia pontes delicadas com aquele momento do mundo, tentando transformar a experiência coletiva da pandemia em matéria poética. Havia algo de muito especial naquela arquitetura cênica.

Mas o teatro, como a vida, nem sempre permite que as obras respirem o tempo que merecem.

Depois disso, nunca mais estreei uma peça nova.

Agora, cinco anos depois, volto ao palco com Quase Todos. Curiosamente, durante muito tempo imaginei que talvez não voltasse mais. Ser ator, especialmente no Brasil, é uma tarefa quase hercúlea. Nada facilita. Não há estruturas sólidas, não há redes de proteção, não há garantias. Há apenas uma insistência quase irracional em continuar. E, ainda assim, continuamos.

Ando pensando muito sobre isso.

A sensação, porém, não muda. Ela continua exatamente a mesma. Talvez Quase Todos seja a minha última investida nesse mundo complexo – e apaixonante, é bom dizer – da interpretação. Mas não quero pensar nisso agora. Não vale a pena antecipar despedidas que talvez nem existam.

Por enquanto, o que existe é outra coisa. As borboletas voltaram a borboletear no estômago e essa sensação é sagrada.

É com ela que preciso trabalhar agora. Mesmo que uma gripe monstruosa, nos últimos dias, tenha me pegado no meio do caminho. Mesmo que as dificuldades continuem sendo maiores do que todos os caminhos que levam até o palco.

Porque, no fundo, talvez seja isso que o teatro sempre nos oferece: a possibilidade extraordinária de, por alguns instantes, sermos muitos dentro de uma mesma história.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2030

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