A Marilia Marton que eu conheço

Conheço Marilia Marton há muitos anos. Nosso primeiro encontro aconteceu em um daqueles momentos em que a vida parece nos testar ao limite. Era meados dos anos 2000, e a Praça Roosevelt ainda era um território em disputa: caos, violência e abandono se entrelaçavam com uma fagulha de possibilidade que insistíamos em acender. A noite, por vezes, parecia maior do que nós. Ainda assim, ali, naquele pequeno laboratório de resistência urbana, inventávamos futuro com a força que só a arte tem.

Foi nesse cenário que Marilia surgiu, trabalhando na subprefeitura da Sé. Ela chegou sem alarde, mas com uma escuta rara e um senso prático que não se intimidava diante da realidade mais dura. Enquanto muitos viam apenas ruína, ela enxergava movimento. Entre pilhas de demandas, reuniões tensas e urgências incontornáveis, era capaz de ouvir – e isso, naquele momento, era quase um ato político.

Alguns anos depois, a gente se reencontrou na Secretaria de Cultura do Estado, quando a SP Escola de Teatro ainda era um desenho no papel e um desejo no peito. Marilia, agora chefe de gabinete de Andréa Matarazzo, já trazia consigo a marca da dedicação que atravessa as gerações de sua família: filha de educadora, criada entre livros e conversas sobre conhecimento, transitava com naturalidade entre a ideia e a ação. Sabia transformar abstrações em instituições, sonhos em políticas públicas. E foi peça decisiva para que aquele projeto, que hoje forma milhares de artistas, encontrasse chão, fôlego e forma.

Mais recentemente, o destino nos cruzou novamente quando Marilia assumiu a Secretaria de Cultura de São Paulo. Recebi a notícia com a serenidade de quem reconhece um gesto justo. Porque, conhecendo sua trajetória, compreendi que ali se abria um novo capítulo – marcado por coragem, escuta e imaginação política.

O que sempre me impressionou em Marilia é sua capacidade de perceber o mundo enquanto ele ainda está mudando. Ela não se limita a administrar o presente: investiga o que pulsa à distância, acompanha o surgimento de novas linguagens, reconhece a arte como organismo vivo, inquieto, em permanente mutação.

Sua visão extrapola fronteiras. Ao observá-la hoje, liderando com vigor e serenidade, reencontro a mesma Marilia de sempre – trabalhadora incansável, estrategista sensível, mulher que acredita no poder da cultura para reorganizar o que a realidade insiste em desordenar. E compreendo, mais uma vez, que o destino às vezes se constrói assim: entre reencontros, persistências e gestos silenciosos que mudam tudo.

Talvez o que mais me impressione seja perceber que, mesmo em meio a tantas demandas, Marilia segue abrindo portas, cultivando coragem e reafirmando, com gestos concretos, a potência da criação.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2019

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