“Meu Discurso/Moj Govor” é um grito desesperador pela alteridade e empatia

Dois atores de nacionalidades distintas encontram-se em Washington, em frente à Casa Branca. São performers: ele, brasileiro; ela, croata. Estão no meio caminho de uma viagem para a Croácia, onde estrearão um espetáculo que ainda não existe.  

O ponto de partida de ambos, porém, é comum. Querem falar da política de seus países e também do imperialismo americano. Querem falar, também, da incomunicabilidade de seus discursos e crenças. 

A Croácia com seu passado de guerras e o presente marcado pela xenofobia, com movimentos nacionalistas e neonazistas, encontra-se com o Brasil, o país do futuro e com o presente marcado pela democracia mais desigual do planeta. Ele é o ator brasileiro Robson Catalunha; ela, a croata Vesna Mačković.

A partir deste encontro breve em frente à Casa Branca – durou poucas horas – os performers gravam alguns vídeos e fazem algumas fotos. O jogo, ali, é exatamente o proposto deste o início: a incomunicabilidade, que marcará todo o percurso do espetáculo que, enfim, teve sua estreia com o instigante título “Meu Discurso|Moj Govor”, no começo do mês em Zagreb, capital da Croácia, e que fez apresentações no Espaço dos Satyros, em São Paulo, neste final de semana.

Robson e Vesna se conheceram no Watermill Center, o laboratório de inspiração e performance do diretor americano Bob Wilson, em Nova York, três anos atrás. Desse encontro surgiu uma parceria que dura desde então. Vesna já esteve no Brasil em outras duas ocasiões, mas esta é a primeira vez que os intérpretes se encontram em um trabalho fora do Watermill. 

“Meu Discurso|Moj Govor” – patrocinado pelo Ministério da Cultura da Croácia e com apoio do Museu de Arte Contemporânea de Zagreb e do Satyros – é um espetáculo visualmente deslumbrante e, imageticamente ácido e tenso, com pouquíssimo espaço para o respiro. Entre os performers, o desespero de se reconhecerem excluídos não apenas na diferença de seus idiomas – o espetáculo, com poucas falas, transita entre o português, croata e inglês – mas, também, da multiplicidade de suas diferenças, que vão muito além de suas nacionalidades.

O socorro que nunca vem, o desespero de comandos que vão dizer sempre o que é certo ou errado ou, simplesmente, como é que se deve se comportar neste ou naquele lugar, e a solidão que existe entre um corpo ou outro, sempre tão igual, mas ao mesmo tempo com diferenças nada sutis, são desenhados em cenas rápidas e vigorosas.

A peça é um grito desesperador pela alteridade e empatia. Com um treinamento robusto da dupla de intérpretes, traz uma sonoridade angustiante, com um belíssimo exercício de sonorização, e um requintado trabalho de projeção de vídeos.     

Teatro da melhor qualidade é o que vimos neste final de semana no Espaço dos Satyros. Um sopro de vitalidade e, porque não dizer, um respiro de liberdade? Afinal, sabemos, todos temos os nossos discursos, mas é mais do que urgente e necessária uma autoanálise. Encontraremos saída ou viveremos, pra sempre, vociferando nossas incomunicabilidades? 

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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