O que é um câncer, afinal?

* por Ivam Cabral, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Então, na quarta-feira eu dei uma entrevista para o jornalista Miguel Arcanjo Prado. Carinhosamente, ele disse que viria falar comigo sobre o excepcional ano de 2014 que eu, a SP Escola de Teatro e Os Satyros passamos. Faríamos um balanço disso tudo. Mais ou menos assim. Porque um dia antes, na terça, eu próprio havia contado a ele que tinha descoberto um nódulo maligno na tireóide e que, por conta disso, nossa peça, “Pessoas perfeitas”, teria a sua temporada encurtada em duas semanas.

Daí o Miguel veio aqui e conversamos. E, claro, quando o assunto virou para o lado da saúde, um tom meio dramático e até meio piegas acabou surgindo. Não poderia ter sido diferente: nossas fragilidades acabam vindo à tona em momentos como esse.

A matéria saiu ontem, quinta-feira, e gerou uma enxurrada de opiniões. De um lado, amigos queridíssimos falando sobre minha coragem de encarar os fatos, enquanto do outro, aqueles que me criticaram, dizendo que eu não precisava me expor tanto.

Fiquei entre essas duas questões, desde então, pois já havia decidido, nessa história, fugir do papel de mocinho e do de herói, também. Não quero nenhum dos dois, absolutamente. Não vou mais ficar falando sobre isso. Até porque é só um câncer. Um câncer pequenino e, tenho certeza, inofensivo e combatível. Acredito piamente nisso.

Perto de tantos outros horrores, minha condição, hoje, não é assim tão excepcional. Das muitas mensagens de solidariedade que recebi, ouvi depoimentos de amigos que viveram (e vivem) coisas tão, mas tão assustadoras que, certeza absoluta, o que passo hoje é pequeno, muito pequeno. Um câncer, nada mais.

Claro que não é tão simples assim. O pior já foi, é passado: foi quando recebi o diagnóstico. Naquele momento, sim, o baque foi grande. Passado o susto, as coisas se assentaram e está tudo bem.

Falei da minha condição de saúde como falo das minhas conquistas. Não consigo enxergar problema nisso. Eu cresci tendo que assumir as minhas condições. Não foi sempre tranquilo para mim admitir, por exemplo, a minha origem. Na época da universidade, no auge de meus 18, 19 anos, nem sempre era fácil falar sobre meu pai, José, um pedreiro, analfabeto, homem muito simples que ensinou muito daquilo que não aprendi com os livros e professores. Naquela época, assumo, doía um pouco – e isso também me aflige: por que algo assim me causava dor, afinal? Nunca pensei sobre os motivos. Hoje, um orgulho imenso desse homem é o que me resta.

Então, meus caros, espero encerrar o assunto por aqui e dizer que, enfim, adorei o que o Miguel Arcanjo fez com a minha entrevista. Me tratou com respeito, fez um trabalho digno. O horror que alguns de vocês podem ter sentido – falo dos amigos que acharam a história sensacionalista – acontece porque, em geral, a gente nasceu para dar certo. E, consequentemente, deveríamos falar sempre sobre as nossas conquistas e vitórias, sobre as flores mais belas daquele caminho que nos transforma nas pessoas perfeitas que tanto almejamos ser.

Mas a vida, meus caros, trabalha também com infortúnios, com desgraças. No meu caso, um pequeno infortúnio que com certeza já está sendo vencido e superado. Insisto: é só um câncer que será combatido. Com todas as minhas energias, que felizmente ganharam intensidade graças às boas vibrações enviadas pelas inúmeras pessoas queridas que me acolheram. Sinto-me em paz agora, e isso é o que importa.

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