MINHA OPINIÃO – LETÍCIA SIMÕES, UM FILME E UM LIVRO

Então eu conheci a Letícia Simões há uns dois anos, através do Guilherme Coelho. Eles fazem cinema e trabalham na Matizar, no Rio. Nesta ocasião, ainda estava presente o cineasta Pedro Cezar, de quem acabara de assistir o excelente “Só Dez por Cento É Mentira”, documentário sobre a obra de Manoel de Barros. Lembro-me que era noite, início da semana, talvez verão. Eles vieram colher uns depoimentos para um filme que estavam realizando.

Fiquei sabendo que Letícia era baiana, morava no Rio há uns anos e que, apesar da pouca idade – devia ter uns 20, 21 anos –, já tinha sido casada e estava começando a produzir seu primeiro longa-metragem. Curtas, já tinha realizado alguns, inclusive exibidos em festivais na França, Inglaterra e México. Depois, soube que estava cursando Comunicação e estudava História e Filosofia. Com um currículo desses, Letícia não podia ser vista apenas como uma menina de 20 e poucos anos. Comecei a prestar atenção na garota.

Primeiro, nos adicionamos no Twitter, depois no Facebook, trocamos mensagens, e-mails. Então, há iuns meses recebi um convite – atrasado, porque a tal mensagem foi parar na junkiebox – para o lançamento de um livro que acabei não comparecendo. Agora, na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Letícia me avisa que seu filme, “Bruta Aventura em Versos”, sobre a poesia de Ana Cristina Cezar, será exibido.

Chego na sessão de estreia do filme, na Mostra, meio febril. Naquela semana eu estava com uma inflamação terrível na amígdala. “Bruta Aventura em Versos” me arrebata. O filme, a partir de entrevistas com pessoas que conheceram de perto Ana Cristina Cezar, é singelo e extremamente tocante. Não só revela uma poeta cheia de vida, como também lança olhares e perspectivas otimistas. A ironia é que Ana Cristina se suicidou em 1983, aos 31 anos. Mais: Letícia compõe um retrato apaziguador da poeta com sua obra. Um acerto de contas da autora com seu público, como se isso fosse possível. O filme todo só é cheio de vida e aponta a salvação pela poesia, pela arte, porque Letícia tem, atualmente, 23 anos e sua juventude, ao realizar o filme, soma a seu favor.

Daí, converso mais com Letícia e fico sabendo que aquele convite para o lançamento de um livro que havia parado na minha junkiebox, era, na verdade, de um livro de poemas seu. Letícia está hospedada em minha casa e, mais curioso, não nos encontramos direito. Eu saio sempre muito cedo de casa, volto muito tarde. Ela está entretida com as apresentações de sua obra na Mostra e vendo, também, muitos outros filmes. Mas, no dia em que ela vai embora, me deixa de presente “Pessoas de Quem Eu Roubei Frases”, lançado pela 7 Letras.

O livro é tão, mas tão, triste. Pensei: não combina muito com o que eu pensava conhecer de sua autora. Letícia é vivaz, sorridente. Conseguiu transformar a tragédia de Ana Cristina em algo otimista. Como podia ter escrito um livro tão triste? Fui reler a obra. Vou me reconhecendo e me encontrando nos versos:

às vezes nem óculos escuros
escondem
a dor.

acordei melancolia
escorrendo pelas
pernas.

meus olhos castanhos madrugaram sem horizonte.

thelonious monk playing indefinitely in my ears:
finalmente entendi
o (falso) romance
entre nossas
palavras.

Quase me senti traído. Depois entendi tudo. Disse “quase” não num mal sentido. Pelo contrário. Meu universo é triste, habita em mim uma melancolia enorme, do tamanho do céu. Então, traído, me conectava à Letícia de uma maneira muito mais profunda. Sim, agora eu entendia melhor o seu universo. E também seu filme, “Bruta Aventura em Versos”, entrava de maneira muito mais coerente em minha vida. Porque Letícia escreve, em algum momento em seu livro:

a crueldade, então
reside em oferecer lilases
quando não se há um chão
– e exatamente qual a profundidade do seu
naufrágio?

É. Afinal, pode ser que “Bruta Aventura em Versos” não seja tão otimista assim, como seu livro, “Pessoas de Quem Eu Roubei Frases” não seja, também, tão triste como me pareceu. Porque a vida, em camadas, é muito mais estimulante. E tanto filme quanto poesia, no real (se é que podemos encontrar alguma realidade nestes universos), serão ficções sempre. Como a minha vida, ficcionada e expandida em identidades múltiplas.

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