Teatros de rua em SP são ameaçados pela alta dos aluguéis e podem fechar

As cortinas são abertas, e o público mergulha em um mundo de ficção. Nas coxias, contudo, a realidade bate à porta. E ela não é fácil para os teatros de rua, que brigam contra a especulação imobiliária para permanecerem abertos.

No dia 30/9, o Conpresp (Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) divulgou uma lista com 22 teatros, considerados patrimônios imateriais. “Apesar de serem privados, são locais que incentivam o uso da rua, em tempos em que as pessoas preferem ir a espaçoes fechados”, afirma Marisabel Mello, diretora do Núcleo de Fomentos da Secretaria Municipal de Cultura, coautor da lista, feita em parceria com a Cooperativa Paulista de Teatro.

Marisabel reitera que esses estabelecimentos foram responsáveis por recuperar regiões da cidade que estavam em decadência, como a praça Roosevelt. Por essas razões, a relação foi posteriormente aprovada pelo Conpresp.

O estopim da iniciativa foram o fechamento do CIT-Ecum, no centro, e a ameaça iminente ao Instituto Brincante e ao Núcleo Bartolomeu de Depoimentos. Ambos, localizados na zona oeste, sofrem ação de despejo.

A nomeação do Conpresp, porém, não garante a segurança. “É como um selo de qualidade que reconhece a importância e o valor cultural desses teatros”, diz Marisabel.
Alguns grupos foram contemplados pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro, que oferece ajuda financeira. O apoio é mais do que bem-vindo às companhias, que costumam cobrar pouco (ou nada) pelas entradas, por acreditarem que o teatro deve ser acessível a todos.

Abaixo, o “Guia” apresenta os 13 teatros que, entre os 22, têm programação nesta semana. Deles, cinco contam com patrocínio e, por enquanto, estão fora de perigo. Prepare a sua agenda, pague o ingresso —pois é a melhor forma de ajudar— e garanta sua poltrona.

TEATROS AMEAÇADOS

Principal fator de risco para os teatros é a especulação imobiliária, que os atinge direta ou indiretamente:

Teat(r)o Oficina
Criado pela arquiteta Lina Bo Bardi, o prédio do Teat(r)o Oficina é tombado desde 2010. Mas isso não impede que ele sofra ameaças: apesar de o prédio permanecer intacto, os terrenos no entorno podem sofrer mudanças drásticas. “O Grupo Silvio Santos comprou os imóveis vizinhos e os derrubou”, diz Marília Gallmeister, arquiteta cênica do teatro. O grupo do apresentador planeja construir torres residenciais no local. “O propósito do Oficina, como foi projetado por Lina Bo Bardi, vai se perder. O objetivo dela era que o espaço ficasse sempre em contato com o cair da tarde, o nascer do sol com duas torres imensas ao lado, ele perderá toda a luz”, afirma Marília. Nesta semana, a companhia mostra o Festival das Cacildas, composto de duas peças sobre a atriz Cacilda Becker (1921-1969): “Cacilda!!!!! A Rainha Decaptada” e “Walmor y Cacilda 64 – Robogolpe”.

R. Jaceguai, 520, Bela Vista, tel. 3106-2818. 300 lugares. Cacilda!!!!! A Rainha Decaptada, 210 min., 14 anos, sáb.: 18h. Até 8/11. Walmor y Cacilda 64 – Robogolpe, 140 min., 14 anos, dom.: 19h. Até 9/11. Ingr.: R$ 30. Ingr. p/ 2122-4070 ou compreingressos.com.

Teatro do Incêndio
“Não temos subsídio, vivemos de bilheteria. Podemos ser despejados”, afirma, sem delongas, o diretor Marcelo Marcus Fonseca. O aluguel do imóvel custa R$ 4.500. “Mas há outros gastos, como o IPTU, que custa R$ 730. A conta exata ao fim do mês é R$ 5.228,97”. O grupo cobra R$ 30 pelo ingresso de “São Paulo Surrealista”, na qual personagens como Mário de Andrade e Roberto Piva buscam o surrealismo da cidade.

R. da Consolação, 1.219, Consolação, região central, tel. 2609-8561. 120 lugares. Sáb.: 21h. Dom.: 19h. Até 2/11. Ingr.: R$ 30.

Teatro Commune (Custo mensal: R$ 25 mil)
O diretor Augusto Marin integra o Motin (Movimento de Teatro Independente) e encabeça um projeto para que pequenos espaços culturais sejam isentos de IPTU. Segundo Marin, o custo total do Commune é de cerca de R$ 25 mil. “Em 2007, o aluguel custava R$ 3.600. Agora é R$ 8.500”, diz. As peças “Bang Bang Você Morreu”, “A Idade da Ameixa” e “Lugar Onde o Peixe Para” estão em cartaz.

R. da Consolação, 1.218, tel. 3476-0792. 85 lugares. Bang Bang Você Morreu, 60 min., 12 anos, sex.: 21h. Sáb.: 19h. Dom.: 18h. Ingr.: R$ 20. Até 26/10. A Idade da Ameixa, 70 min., 12 anos, sáb.: 21h30. Dom.: 20h30. Até 25/10. Ingr.: R$ 30. Lugar Onde o Peixe Para, 60 min., livre, qua. e qui.: 21h. Até 6/11. Ingr.: R$ 25.

Núcleo Bartolomeu de Depoimentos
Os imóveis em volta foram demolidos para a construção de um prédio. Só sobrou o Núcleo, que se recusa a sair. “Estamos lá há oito anos. Deveriam ter nos oferecido o imóvel quando o venderam”, diz uma das fundadoras, Roberta Estrela D’Alva. “Fizemos um manifesto no bairro, temos maratonas de programação”. A cia. apresenta “Baderna” (parte do protesto), misto de teatro e dança, que ocorre sobre escombros da parte da sede que foi destruída.

R. Dr. Augusto de Miranda, 786, Vila Pompéia, tel. 3803-9396. 60 lugares. Sex. e sáb.: 21h. Dom.: 20h. Até 7/12. Ingr.: contribuição voluntária. Retirar ingr. 1 h antes.

 

Espaço dos Satyros
O Espaço dos Satyros testemunhou o avanço da praça Roosevelt. “Quando chegamos, em 2000, era um lugar perigoso”, lembra Rodolfo García Vásquez, cofundador da companhia. Depois de algum tempo, outros grupos teatrais chegaram, como os Parlapatões. “Eles ocuparam um imóvel que era uma padaria, onde havia ocorrido uma chacina, por causa de uma traição amorosa”, conta Vásquez. Bares também começaram a abrir na região, que começou a se recuperar -e, com isso, o preço dos imóveis subiu. Vásquez lembra que o Satyros 2, também localizado na Roosevelt, quase foi fechado em 2013. “Mas o proprietário disse que, se fizéssemos uma reforma, poderíamos continuar ali. Conseguimos o apoio de um escritório de arquitetura, que está fazendo as obras”. O Satyros 1, contudo, continua em perigo.
“O preço do aluguel era R$ 1.200. Agora, é R$ 7.000. O Satyros 2 custa R$ 15 mil”. Enquanto a segunda unidade não é concluída, o Satyros 1 sedia seis peças, entre as quais “Pessoas Perfeitas”, resultado de um estudo sobre os moradores do centro da cidade.

Espaço dos Satyros 1 – pça. Franklin Roosevelt, 214, Consolação, região central, tel. 3258-6345. 60 lugares. Pessoas Perfeitas, 80 min., 16 anos, qui. a dom.: 21h. Até 26/10. Ingr.: R$ 5 (moradores da pça. Roosevelt) e R$ 20.

Galpão do Folias (Aluguel: R$ 6.200)
O Grupo Folias conta com o Fomento ao Teatro até maio de 2015. “Agora, as coisas estão relativamente calmas, mas sempre há o fantasma do aluguel”, diz o ator e diretor Dagoberto Feliz. O imóvel que o grupo ocupa pertence à Fundação Conrado Wessel. “Eles não podem vender a casa, mas podem alugar para outros.” O Grupo Folias gasta por volta de R$ 6.200 com aluguel e IPTU. O palco recebe a peça “Medeia: 1 Verbo”, de Sérgio Roveri, releitura do clássico de Eurípedes.

R. Ana Cintra, 213, Santa Cecília, região central, tel. 3361-2223. 96 lugares. Sex. e sáb.: 21h. Dom.: 20h. Até 30/11. Ingr.: R$ 40.

Instituto Brincante
O Instituto Brincante sofre risco iminente de despejo. Devido à alta de preços na região, o dono do imóvel é constantemente sondado por construtoras, que fazem ofertas generosas. Procurado pela reportagem, o proprietário César de Oliveira Alvez não quis se pronunciar. Neste sábado (18), o teatro recebe o espetáculo “A Última Estrada”, da Cia. Soma de Dança, que narra a história de um casal que parte em uma jornada em direção ao litoral.

R. Purpurina, 428, Sumarezinho, região oeste, tel. 3816-0575. 96 lugares. Sáb. (18): 21h. 50 min. Não recomendado para menores de 10 anos. Ingr.: R$ 30.

Casa Livre
O ano de 2015 ainda é obscuro para a Cia. Livre. É que, até dezembro, o grupo conta com o patrocínio da construtora Cyrela, que banca o aluguel e outros custos. “Ainda temos o Fomento ao Teatro que vai até março. Depois disso, não sabemos”, afirma Laura Salermo, produtora do teatro. Há dois anos, a Cia. Livre desembolsa R$ 3.000 para o aluguel. A partir de janeiro, o valor saltará para R$ 3.500. Com ingressos a R$ 20, o grupo mostra “Cia. Livre Canta Kaná Kawã”.

R. Pirineus, 107, Campos Elíseos, região central, tel. 3257-6652. 40 lugares. Ter. e qua.: 20h. Até 29/10. 90 min. Livre. Ingr.: R$ 20.

 

AQUI JAZ

CIT-Ecum, na rua da Consolação, fechou as portas em julho. A esperança de manter o teatro aberto era o tombamento do prédio. O Conpresp, no entanto, constatou que a construção tinha sofrido muitas alterações e que, portanto, não poderia ser tombada.

 

SALVOS

Cinco teatros conseguiram patrocínio, mas a ajuda tem data de validade:

Teatro Studio Heleny Guariba
Antigo Studio 184, o teatro se mantém na praça Roosevelt com apoio da construtora Tecnisa. “Não deixa de ser um risco, porque o patrocínio pode não ser renovado. Ele vai até 2016”, diz a diretora Dulce Muniz. Atualmente, o grupo do Heleny Guariba não tem nenhuma peça em cartaz. Mas o teatro recebe a peça “Eu, Eu Mesmo e Mim”, da Cia. Maltrapilha.

Pça. Franklin Roosevelt, 184, Consolação, tel. 3259-6940. 48 lugares. Sáb.: 21h. Dom.: 19h. Até 23/11. Ingr.: R$ 30.

Espaço Cia. do Feijão
A casa da Cia. do Feijão não tem patrocínio. Mesmo assim, não passa por ameaça no momento. “Geralmente, o aluguel sobe na hora da renovação. Não é o nosso caso”, afirma o diretor Zé Ernesto Pessoa. “O locatário é muito compreensivo. Ele aumenta o aluguel conforme o mercado, mas, como pagamos em dia, ele abate o valor que aumentou.” Com muitas peças gratuitas, a companhia arca com os custos com recursos públicos, vindos do Programa Municipal de Fomento ao Teatro. Até 15/11, o grupo apresenta “Pálido Colosso”.

R. Teodoro Baima, 68, República, 3259-9086. 50 lugares. Seg., sáb. e dom.: 20h. Até 15/11. GRÁTIS.

Teatro da Vertigem
O grupo guarda seu acervo no mesmo prédio que abriga a sede do Teatro de Narradores. O espaço, porém, é limitado. “O ideal seria que o prédio inteiro fosse um espaço de teatro”, diz Guilherme Bonfanti, diretor técnico do grupo. Ele reitera que não há dificuldades financeiras, pois a companhia conta com o patrocínio da Petrobras. Atualmente, apresentam, na rua, “A Última Palavra É a Penúltima 2.0”.

Passagem Subterrânea entre o Viad. do Chá e Pça. Ramos de Azevedo – r. Cel. Xavier de Toledo, s/nº, tel. 3255-2713. 50 pessoas. Sex. a dom.: 19h e 21h. Até 7/12. Grátis.

Cia. da Revista
O grupo deve inaugurar a nova sede, na alameda Nothmann, no dia 6/11. Mas, antes mesmo da abertura, a companhia encontrou dificuldades. “Agora conseguimos um patrocinador que arca com alguns custos. Deve ficar tudo bem pelos próximos dois anos”, afirma o diretor Kleber Montanheiro. O grupo inaugura o novo espaço com o musical “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque, que esteve em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil.

Al. Nothmann, 1.135, Campos Elíseos, região central. Abertura 6/11.

Sede Luz do Faroeste
A Sede Luz do Faroeste, palco da companhia Pessoal do Faroeste, esteve ameaçada. No entanto, o grupo conseguiu patrocínio da construtora Setin. “Eles pagam nosso aluguel, que custa R$ 8.000”, diz o diretor Paulo Faria. “Conseguimos o patrocínio em outubro. Já estávamos com atraso no aluguel e nos preparávamos para entregar o imóvel.” Na semana passada, o grupo estreou o musical “Luz Negra”, que tem Mel Lisboa no elenco, como atriz convidada.

R. do Triunfo, 301, Santa Efigênia, tel. 3362-8883. 80 lugares. Ter. e qua.: 21h. Até 4/3/2015. 77 min. Não recomendado p/ menores de 14 anos. Ingr.: contribuição voluntária (c/ reserva: R$ 40).

 

Fonte: Guia da Folha, 17 de outubro de 2014.

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