Os Eternos Companheiros de Dioniso

por Welington Andrade             

Os Satyros comemoram vinte e cinco anos de interação lúdica e lúcida com a cidade.

A longevidade de uma companhia de teatro é uma meta com a qual talvez poucos diretores, atores e dramaturgos no Brasil ousem sonhar. A estabilidade do grupo sedimenta seu projeto artístico, estabelece com o público vínculos mais duradouros e convida à necessária experimentação de repertório e de linguagens. Assim é que o fato de uma companhia como Os Satyros chegar já a seu vigésimo quinto ano de existência deve ser celebrado por todos aqueles que creem que o teatro ainda tem muito a dizer nos tempos atuais. (Vale conferir a série de atividades especiais que o Itaú Cultural está organizando, a partir desse mês de outubro, para marcar a data.)

Fundada em 1989 por Ivam Cabral e Rodolfo García Vázques, com a montagem de Aventuras de Alerquim, a companhia iria se tornar nacionalmente conhecida com o espetáculo Sade ou noites com os professores imorais, sua primeira incursão por A filosofia na alcova, do Marquês de Sade, autor que orientou boa parte do repertório artístico e político do grupo e esteve no centro das comemorações de suas duas décadas. Entretanto, a trajetória d’Os Satyros – uma das mais consequentes no panorama geral da cena contemporânea brasileira – deve ser avaliada menos pelo bom número de espetáculos que conceberam com temas polêmicos, difíceis de serem digeridos pelo grande público, e mais pela ousadia de tratar tais assuntos pelo viés de uma teatralidade viva e inquieta.

Além de militar em uma vertente teatral de clara vocação antimercadológica – o que poderia conferir somente a marca de um heroísmo resistente, mas inócuo –, o grupo soube como poucos apropriar-se de uma cidade tão caótica e hostil como São Paulo e inocular em suas ruas e praças o vírus da cidadania mais radical, porque pautada a um só tempo por um irreverente exercício de fruição artística e de consciência crítica.

No início dos anos 1990, os famigerados anos Callor, as Folias teatrais: uma saudação à primavera, organizadas por Ivam e Rodolfo, deixaram o Teatro Bela Vista, então sede do grupo, aberto ininterruptamente por quatro dias e quatro noites, durante os quais passaram pelo local escritores, intelectuais e artistas das mais variadas áreas (artes plásticas, teatro, dança, música…) e das mais diferentes regiões do país.

Após excursionar com Saló, Salomé (1991) por diversos festivais europeus, Os Satyros instalaram-se em Lisboa, onde passaram a residir pelos três anos seguintes. A partir de 1994, a companhia voltou a trabalhar no Brasil, fixando-se em Curitiba, mas sem abandonar sua atuação na Europa, seja na capital portuguesa (onde permaneceram trabalhando com regularidade até a virada do milênio), seja em diversas cidades do velho continente, a convite da Interkunst, instituição alemã com a qual desenvolveram uma série de projetos especiais até 2004.

"Salo Salomé"

 

Em 2000, é inaugurada a sede paulistana da companhia, na Praça Roosevelt, fato que proporciona ao local um processo de revitalização de múltiplos e riquíssimos desdobramentos. Além da programação teatral regular, o grupo realiza, desde então, sempre no início da primavera, a maratona cultural Satyrianas , evento que, durante setenta e oito horas ininterruptas, promove inúmeras atividades cênicas de acesso livre aos moradores da cidade, e que, a partir de 2009, passou a integrar o calendário oficial do Estado de São Paulo (a última edição das Satyrianas reuniu cerca de mil artistas envolvidos em trezentas atrações, destinadas a um público médio de quarenta mil espectadores).

Associar o fenômeno teatral a sua inequívoca vocação de arte pública talvez seja a mais importante contribuição que Os Satyros vêm prestando à cultura brasileira. Quem transita hoje pela praça Roosevelt – onde, além da própria sede da companhia e da SP Escola de Teatro, na qual ela também atua, estão instalados mais quatro teatros – revive o ambiente das antigas ágoras gregas, locais de grande afluência do público nos quais se promoviam discussões políticas e festas cívicas.

Ciosos de seu repertório teatral, apresentado sob a marca da inventividade formal e estilística, Os Satyros podem se sentir também orgulhosos de sua atuação cosmopolita. As Satyrianas, por exemplo, são o momento em que a cidade de São Paulo toma a si mesma como objetivo de festa e reflexão.

Fonte: Revista Cult, outubro de 2014

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