É primavera

Nenhuma estação é tão importante para nosso ofício quanto a primavera. A estação das flores está diretamente relacionada ao advento do teatro ocidental, lá na Grécia Antiga, mais especificamente em Atenas, onde o culto ao deus Dioniso deu origem às manifestações teatrais, encenadas em festivais imprescindíveis para a democracia.

Dioniso era filho de Zeus com Sêmele, uma mortal, e era o deus associado aos ciclos vitais, às festas, ao vinho, ao delírio místico. Por isso, dizia-se que ele voltava à vida triunfantemente na primavera, após ficar recolhido no inverno, devolvendo aos campos a aguardada fertilidade. E os gregos rendiam suas homenagens a ele, como forma de agradecimento.

O poder simbólico da primavera também é especialmente significativo para minha própria realidade. É o tempo do renascimento, do recomeço, o fôlego para iniciar novos projetos, para embarcar em novas aventuras de peito aberto e com esperança na vida.

Aqui em São Paulo, para saudar, como os gregos faziam, o auge da primavera, temos a Satyrianas, promovida anualmente pela minha Cia. de Teatro Os Satyros. Neste ano, enquanto no Satyros completamos surreais 25 anos de estrada, o evento chega à sua 15ª edição.

O festival surgiu, como a maioria das conquistas nessas décadas de teatro, de maneira despretensiosa. Uma reunião de artistas, com o objetivo de fomentar a cultura da cidade, em alguns poucos espaços.

De ano em ano, a coisa foi ganhando proporções impensáveis até se tornar o que hoje é: parte do calendário oficial do Estado, Prêmio Especial da Crítica da APCA (2007), Prêmio Shell na categoria Inovação (2014), longa-metragem (“Satyrianas, 78 horas em 78 minutos”), e um sem-número de atividades e participantes, numa mobilização artística de potência inquestionável.

A largada será dada daqui a uma semana, dia 20 de novembro. E a maratona se estende até domingo, 23 de novembro. Isso mesmo, são 78 horas ininterruptas de muito teatro, literatura, performance, dança, circo e música, de experiências radicais e encontros transformadores.

Esta edição contará com mais de dois mil artistas vindos de todo o Brasil – só da UniRio, virão mais de 80 estudantes. Mais de 600 apresentações, numa média de quase 8 atrações por hora, em uma vasta gama de espaços culturais espalhados pelo centro de São Paulo, com maior foco na Praça Roosevelt.

Como já aconteceu em edições anteriores, a Sede Roosevelt da SP Escola de Teatro é um desses espaços. Mas a Escola é muito mais que isso: além de ceder seus espaços físicos e muitos de seus aprendizes e artistas para as ações, é uma grande parceira do evento, responsável por projetos exclusivos, com destaque para o já conhecido Ouvi Contar, que realiza leituras dramáticas de textos teatrais inéditos escritos por novos autores, com um diferencial: a leitura é feita em domicílio, para moradores da região da Praça.

A hora está chegando. E, a cada ano, temos a bela certeza de que nossa cidade, nosso País, pulsa arte, sim. Como escrevi aqui no ano passado: que Dioniso esteja conosco e o espírito da Satyrianas nos inspire! Evoé!

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