COMO SURGIRAM AS SATYRIANAS

Ivam Cabral – Tínhamos acabado de estrear “Salomé”, estava muito legal. E nós tínhamos um amigo, um ator, que estava no elenco de “Salomé” e que trabalhava na Apetesp. Ele foi mandado embora, ficou muito puto com a entidade e daí, pra sacanear, levou com ele a agenda da secretaria da associação, com todos os contatos. A Apetesp na época era muito poderosa, e nessa agenda estavam contatos diretos de gente como Silvio Santos, Gugu Liberato, gente de calibre alto. Então aquele menino chegou com a agenda lá no Bela Vista e me deu ela de presente: “É, me mandaram embora e eu trouxe isso comigo, fica de presente para você”. Eu disse: “Gente do céu, olha isso, tem o telefone de todo mundo aqui”. E comecei a rir. Ele me falou que talvez eu precisasse de algum dos telefones que estavam ali e saiu. Eu abri a agenda meio aleatoriamente e caiu no número da Eva Wilma. Tava ali na sala o  Fauze El Kadre, ator dos Satyros. Eu disse pra ele: “Mas o que eu vou fazer com o número de telefone da Eva Wilma?” Imediatamente me ocorreu uma molecagem e eu sugeri a ele: “Vamos passar trote nesse pessoal”. E rimos. “Vamos”, ele respondeu. Então a gente começou a passar trote, começamos na letra A, e fomos passando trote em todo o mundo que encontrávamos ali: Dercy Gonçalves, Eva Wilma, Raul Cortez, Ruth Escobar. Pra Dercy Gonçalves, lembro até hoje do trote. Eu liguei, era no Rio de Janeiro, ela atendeu, ela, a própria. Eu perguntei: “É do açougue?” E ela: “Não”. Eu: “É que eu passei aí em frente e vi uma porca na janela”. E desliguei o telefone, morri de rir, porque, imagine, passar um trote na Dercy! Era o máximo. Fomos passando trote, uma tarde inteira passando trote, até chegar na letra V. Um dos primeiros nomes era Vanusa. Eu liguei para a Vanusa, ela atendeu. Eu, é obvio, disfarçava a voz: “Aqui é o Marcelo, e eu queria contratar você”. Era setembro, o mês estava começando, acho que era dia 1º de setembro. “A gente está em setembro, e eu queria contratar você para cantar ‘Manhãs de Setembro’ às seis horas da manhã, no bairro do Bexiga.” E  a Vanusa, do outro lado, achou legal a idéia. “Nossa, que legal!” “É, e daí a gente vai saudar a primavera às seis da manhã e você desce a rua cantando.” Eu falava umas coisas absurdas pra a Vanusa, e ela: “Que lindo, então eu desço a rua toda?” Eu: “Sim, durante horas, muitas horas, vamos ficar saudando a primavera”. A Vanusa, louca, foi topando tudo, achando tudo muito lindo e dando corda para mim. Daí, quando estava lá no meio do delírio com a Vanusa, tapei o bocal do telefone e falei pro Fauze: “Cara, acabei de ter uma idéia genial”. Voltei à Vanusa: “Tá bom, Vanusa. Estamos combinados. O Ivam Cabral vai ligar para você, e daí acertam tudo”. Desliguei e falei para o Fauze que eu acabara de ter a idéia incrível de fazer um evento de 24 horas ininterruptas, durante o qual a Vanusa ia se apresentar cantando “Manhãs de Setembro”, na chegada primavera, e nós, os Satyros, a gente ia cantar, dançar, fazer um monte de coisas lá no Teatro Bela Vista”. Assim foram concebidas as Satyrianas, no formato que a gente conhece hoje. Daí eu liguei seriamente para a Vanusa, ela topou então cantar às cinco horas da manhã do dia 21 de setembro, pra saudar a primavera. Depois que a Vanusa topou, eu peguei aquela agenda seriamente e chamei gente, muita gente. Daí, o Antônio Fagundes, que fazia “O Dono do Mundo” na tevê, um grande sucesso, topou ir também. Quando o Fagundes topou, eu pensei que nós tínhamos tudo na mão. Intensificamos a divulgação, e até a Globo colocou um link direto do Bela Vista, com o Maurício Kubrusly apresentando. Veio na cola a TV Cultura, que mandou a reportagem do programa Metrópolis. Compareceu até o diretor de teatro Moacyr Góes, que estava estourando no Rio de Janeiro. Nós trouxemos ele do Rio com passagem comprada com um cheque emprestado de uma amiga, pré-datado. Sílvia Poppovic mediou um debate com Antonio Fagundes, Débora Bloch e Diogo Vilela. Apareceu o Benedito Ruy Barbosa, a gente trouxe Celso Nunes, Ademar Guerra, Gianni Ratto, Letícia Sabatella, uma porrada pessoas bacanas.

Rodolfo García Vázquez – E as 24 horas em que o Ivam pensou no início cresceram muito. A gente começou numa quinta-feira ao meio-dia e acabou no domingo à meia-noite. Foi uma coisa! Quando a gente viu… O Ivam foi enlouquecendo com os contatos, enlouquecendo, enlouquecendo. Quando a gente falou: “Olha, é muita coisa, não sei como é que nós vamos fazer isso”, já era tarde. Estávamos comprometidos, tínhamos que fazer. E olha que eram quatro dias sem dormir, o teatro aberto. E rolou de tudo. Tinha uma bacante muito louca que jogava vinho em todo o mundo, banda de rock de madrugada. A gente não sabia o tamanho que ia tomar o evento. Foi quando veio a Globo com o Maurício Kubrusly, link ao vivo e tudo, a TV Cultura, uma doideira. A rua estava de um jeito que não passava carro, não dava pra andar. Parada, de tanta gente ali. E não sabíamos o que fazer. A gente nunca mais conseguiu reproduzir, nem  na Roosevelt, o que aconteceu na Major Diogo.

IC – Em quantidade de pessoas. Porque lá, literalmente,  a rua parou mesmo., Ademar Guerra, eu lembro assim, que, de repente, no meio da rua, você encontrava essas pessoas, como o Ademar, que era um dos maiores diretores do Brasil, por exemplo, que para a gente era uma pessoa mitológica, e estava ali, com a gente. Foi muito lindo o que aconteceu naquele momento. E o engraçado é que a gente não tinha condição nenhuma. O teatro era muito precário.

RGV – Sim, cheio de problemas, goteira, os camarins eram nojentos. Lembro de uma situação constrangedora. Ouvi Sílvia Poppovic e Debora Bloch falando sobre o banheiro. A Debora quis ir ao banheiro, no meio do debate e perguntou onde era Sílvia respondeu: “Se eu fosse você, não ia”. E eu, do lado das duas, roxo. Acontece que a gente queria fazer, não interessava como. Nós éramos muito pobrezinhos.

Fonte: “Cia. de Teatro Os Satyros: um Palco Visceral”, de Alberto Guzik, Coleção Aplauso, Imprensa Oficial de S. Paulo, 2006

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