Minhas Sugestões

MINHA OPINIÃO – “FESTA NO COVIL”, UMA OBRA ATERRADORA

Poder, perda da inocência e contradições sociais, sobretudo

Yolcaut é um homem muito rico que realiza todos os desejos de seu filho, Totchli. Este é o ponto de partida de “Festa no Covil”, do mexicano Juan Pablo Villalobos, narrado em primeira pessoa pelo “precoce” Totchli, que vive isolado em uma mansão.

Tudo parece absolutamente perfeito naquele mundo cor-de-rosa; Totchli tem tudo o que quer, muito mais do que precisa. Porém, à medida que vamos descortinando o dia a dia do garoto, seu mundo começa a ficar sombrio e extremamente triste.

Logo no início do livro, ficamos sabendo que o pequeno Totchli, que pertence ao “melhor bando do universo” e dono da maior coleção de chapéus do mundo, quer porque quer um hipopótamo anão da Libéria, mas eles não são vendidos em pet shops, lojas que, no máximo, vendem cachorros.

Aos poucos, descobrimos que Totchli é filho de um poderoso traficante que o mantém enclausurado e lhe ensina muitas coisas, sobretudo o ódio aos americanos e a lealdade ao crime.

Sob o ponto de vista infantil, Villalobos constrói uma obra aterradora que fala sobre poder, perda da inocência e contradições sociais, sobretudo. Obrigatória!

“FESTA NO COVIL”, DE JUAN PABLO VILLALOBOS
Companhia das Letras

MINHA OPINIÃO – EM “HINOS TARDIOS”, HÖLDERLIN CELEBRA A NATUREZA, A CULTURA GERMÂNICA E A GRÉCIA ANTIGA

Obcecado pela cultura grega, Hölderlin sempre se mostrou aficcionado pelo hino

Hölderlin  (1770-1843), poeta e romancista – e que não foi reconhecido em vida, descoberto apenas na metade do século XIX – é considerado hoje uma das maiores vozes da literatura alemã.

Mas foi através de outro poeta de língua germânica, Rainer Maria Rilke, que cheguei até esses “Hinos Tradios”. Segundo o próprio Rilke, Hölderlin o teria inspirado em “Sonetos a Orfeu: Elegias de Duíno”, uma de suas obras mais inspiradoras.

Obcecado pela cultura grega, Hölderlin sempre se mostrou aficcionado pelo hino – gênero lírico  de cunho glorificador ou santificador. Em “Hinos Tardios”, o poeta celebra a natureza, a cultura germânica e a Grécia antiga, dentre outros temas.

TRECHO:

No ameno azul…

No ameno azul floresce, com o seu telhado de metal, o campanário. À sua volta paira a gritaria das andorinhas, rodeia-o o azul mais comovente. O sol ergue-se, alto, sobre ele, e dá cor à chapa metálica, mas é no seu cimo que, ao vento, suavemente, canta o catavento. Quando alguém então desce para o patamar do sino, por aqueles degraus, há uma vida silenciosa, pois quando a sua figura está assim tão isolada, sobressai a plasticidade do homem. As janelas em que os sinos tocam são como arcos de beleza. Pois os arcos ainda imitam a Natureza, são semelhantes às árvores da floresta. E o que é puro também é belo. No interior, da diversidade surge um espírito sério. E as imagens são tão simples, tão santas, que muitas vezes verdadeiramente se teme descrevê-las. Porém os Celestiais, que são sempre bondosos, uma vez que tudo têm, como os ricos, possuem a virtude e a alegria. O homem pode imitá-los. Mas poderá o homem, quando toda a sua vida está cheia de trabalhos, erguer o olhar e dizer: assim quero eu ser também? Sim. Enquanto a amabilidade pura habitar no seu coração não será uma atitude infeliz o homem medir-se pela divindade. Será Deus desconhecido? Será manifesto como o Céu? Antes isto creio. É a medida do homem. Cheio de mérito, mas poeticamente, vive o homem sobre esta Terra. E no entanto a sombra da noite e as estrelas não são, se é que posso dizê-lo, mais puras do que o homem, como imagem que é da divindade.

Haverá na Terra uma medida? Não, não há. É que os mundos do Criador jamais inibem o curso do trovão. Também uma flor é bela porque floresce sobre o sol. O olhar encontra muitas vezes ao longo da vida seres que seriam mais belos de nomear que as flores. Oh, como o sei bem! Pois agradará a Deus que a figura e o coração sangrem e que se deixe completamente de existir? Mas a alma, tal como penso, deve permanecer pura, pois assim chega ao que é poderoso sobre as asas de águias como um cântico de louvor e com a voz de muitas aves.

“HINOS TARDIOS”, DE FRIEDRICH HÖLDERLIN
Assirio & Alvim

A MINHA OPINIÃO – “O MONTE DO MAU CONSELHO” É UM LIVRO MELANCÓLICO, PORÉM ESPERANÇOSO

O Monte do Mau Conselho" é um livro melancólico, porém esperançoso

Passei as minhas férias, em janeiro, entre o Egito e Israel, lendo “O Monte do Mau Conselho”, de Amós Oz. Foi uma grande experiência. Não apenas porque estava exatamente no lugar do planeta onde se desenvolvem as tramas da obra, mas – e principalmente – porque mergulhava em um dos momentos da história recente da humanidade que mais me fascina: a década de 1940.

Três histórias compõem esta obra de Amós Oz. Na primeira, que dá título ao livro, ficamos conhecendo o garoto Hilel Kipnis, obeso e asmático, filho de um pai sonhador e otimista e de uma mãe que permaneceu na Palestina por pura casualidade. Mas são as personagens secundárias que dão poesia à narrativa. Desde as vizinhas musicistas ao soturno Mítia, inquilino da família.

Na segunda história, “O Senhor Levy”, mais uma vez o narrador é um garoto, Uri, desta vez bravo e valente, que convive com seu pai, Efraim, eletricista e devaneador, e com as descobertas de sua, um tanto confusa, sexualidade.

Fecha a obra “Saudades”, uma série de cartas do doutor Nussbaum, médico condenado à morte por uma doença misteriosa jamais revelada ao leitor, à sua amante Mina, cujo paradeiro ele desconhece.

“O Monte do Mau Conselho” é um livro melancólico, porém esperançoso. E é na relação entre árabes e judeus, trabalhada o tempo todo entre as narrativas, que ficamos com a boa sensação de que, por meio do humano – e talvez apenas através dele – é que encontraríamos alguma saída para os conflitos entre os dois povos.

Por exemplo, em “O Senhor Levy” ficamos conhecendo, na relação de um pai com seu único filho, a visão de dois mundos completamente antagônicos. De um lado, o pai, poeta, “adorável como um ursinho de pelúcia”, que “descansava no verão numa espreguiçadeira no quintal, contando as horas e os dias”; e, de outro, Efraihm, que aderiu à luta clandestina contra os britânicos e que só aparece em casa para dormir. Entre os dois mundos, os sonhos. Enquanto o pai fantasia fontes cristalinas e poços abundantes, o filho tem visões apocalípticas, onde as cidades ardem.

Talvez resida em Amós Oz uma boa saída para o futuro. Sua posição política – embora utópica num primeiro momento – prevê que possa haver uma espécie de “paz sem reconciliação”, onde Isarel e Palestina possam conviver em harmonia mantendo suas diferenças. Como em “O Senhor Levy”, onde o fogo do apocalipse e a poesia das águas transcorrem em equilíbrio.

“O MONTE DO MAU CONSELHO”, DE AMÓS OZ
Companhia das Letras

MINHA OPINIÃO – PARA ONDJAKI, FELIZMENTE, AS CRIANÇAS NÃO CRESCEM EM SEGREDO

Ondjaki é angolano, nascido em Luanda. Com formação em Sociologia, em Lisboa, atualmente vive no Rio de Janeiro. Nascido Ndalu de Almeida, aos 35 anos é um dos maiores escritores da língua portuguesa.

Eu o conheci no final dos anos 1990, em Portugal. Ndalo, que na época tinha uns 18 ou 19 anos, estudou teatro com Os Satyros em nossas oficinas livres de interpretação teatral, em Lisboa.

Dono de uma obra extensa – com 16 títulos publicados – já foi traduzido para o francês, inglês, alemão, italiano, espanhol e chinês. Em seu currículum, coleciona, ainda, prêmios importantes em diversas partes do mundo, incluindo aí o Prêmio Jabuti, em 2010, por “AvóDezanove e o segredo do soviético” (Companhia das Letras).

“Os da Minha Rua”, lançado pela editora Língua Geral em 2009 e já em sua terceira edição, é um livro de memórias. Reúne 22 contos curtos e fala sobre a infância do autor, vivida em Luanda entre os anos 1980 e 1990.

Escrito em primeira pessoa, e entre o limite da ficção e realidade, o narrador traz histórias de família, carnaval, das festas nas casas dos tios, da parada de primeiro de maio e até da novela brasileira “Roque Santeiro”.

Nesta obra, o autor faz uma grande homenagem à infância. Temas como morte, amizade e a descoberta do amor – “Os Calções Verdes do Bruno” é um dos contos mais bonitos do livro –  são tratados com delicadeza e extremo lirismo.

E contradizendo a poeta Ana Paula Tavares, Ondjaki nos mostra neste “Os da Minha Rua” que, felizmente, as crianças não crescem em segredo.

POEMA DE MARÇO

ELOGIO DO APRENDIZADO
Bertold Brecht
Tradução de Paulo César de Souza

Aprenda o mais simples! Para aqueles
Cuja hora chegou
Nunca é tarde demais!
Aprenda o ABC; não basta, mas
Aprenda! Não desanime!
Comece! É preciso saber tudo!
Você tem que assumir o comando!

Aprenda, homem no asilo!
Aprenda, homem na prisão!
Aprenda, mulher na cozinha!
Aprenda, ancião!
Você tem que assumir o comando!
Freqüente a escola, você que não tem casa!
Adquira conhecimento, você que sente frio!
Você que tem fome, agarre o livro: é uma arma.
Você tem que assumir o comando.

Não se envergonhe de perguntar, camarada!
Não se deixe convencer
Veja com seus olhos!
O que não sabe por conta própria
Não sabe.
Verifique a conta
É você que vai pagar.
Ponha o dedo sobre cada item
Pergunte: O que é isso?
Você tem que assumir o comando.

MINHA OPINIÃO – EM “CHARQUE”, MARCELO MIRISOLA DESTILA SUA DOÇURA

Marcelo Mirisola é o grande escritor da minha geração. Estou convencido disso. Mais: descobri que li quase todos os seus títulos. Me certifiquei disso porque queria encontrar o meu volume do “Animais em Extinção” e, vasculhando as minhas estantes, fui recolhendo todos os seus títulos. Ao final, constatei que falta apenas a leitura de  ”Fátima fez os Pés para Mostrar na Choperia”, de 1998, para completar a bibliografia do cara.

Mas, de todos os seus livros, sou alucinado mesmo pelo “Joana a Contragosto”. Na minha opinião, não apenas o seu melhor livro, mas um dos 10 melhores escritos nesta primeira década. Cheguei, alguma vez, a pensar em adaptá-lo para o teatro. Acho que a obra dialoga com “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe, e tem grande teor dramático. Se bem adaptado, poderia resultar numa grande experiência cênica.

Mas foi em 2008 que MM escreveu um outro livro marcante, “Animais em Extinção”. Embora meio renegado por ele – me confessou recentemente em uma mensagem no Facebook que a obra “tem um monte de barrigas e equívocos” –, considero este trabalho um dos escritos mais importantes do Movimento Praça Roosevelt. Incluindo aí as obras dramatúrgicas, também. E olhe que neste movimento temos até a premiada e respeitadíssima escritora alemã Dea Loher que escreveu “A Vida na Praça Roosevelt”, em 2004, traduzida e montada em várias partes do mundo.

Mas eu vim aqui pra falar de “Charque”, o último trabalho de MM que saiu no final do ano passado, pela Editora Barcarolla. E, confesso, terminei de ler o livro com nó na garganta. Não só porque se trata realmente de um livro triste – há ali, retratada, uma geração perdida em seu próprio simulacro e encurralada num tempo dizimado, sem amanhã. Mas sem passado também.

“Charque” se inicia justamente no momento em que o garoto que “não aguentava mais bater punheta” resolve “comer uma puta com o dinheirinho que ganhou da nonna no dia 12 de Outubro”, o dia da Padroeira do Brasil. Ele tem 16 anos e estamos exatamente na virada dos anos oitenta para os noventa. E “o resto é um grito desesperado.”

O pano de fundo do livro é o Brasil dos anos sessenta até os dias de hoje. AIDS, política, Nádia Lippi, Praça Roosevelt e até Alberto Guzik são figuras importantes do livro. E não faltam, é claro, Marisetes, Nayrinhas e Bias.

Mas o que melhor MM faz nesta obra é destilar a sua doçura. Sim, eu disse doçura mesmo. Embora num primeiro momento o autor pareça ácido, há muita poesia em seu universo. E ele começa a narrativa dizendo que o que resta a ele é tocar seu “barquinho fingindo que nada de excepcional está acontecendo.”

Claro que quem conhece MM sabe que não é tão simples assim. O cara não veio ao mundo pra fazer figuração. Comecei este texto dizendo que ele é o grande escritor da minha geração.

MINHA OPINIÃO – CONTARDO CALLIGARIS: A FICÇÃO PREENCHE ESPAÇOS ONDE A REALIDADE NÃO ENCONTRA RESPOSTAS

O psicanalista Carlo Antonini já havia me emocionado em “O Conto do Amor”, o romance de estreia de Contardo Calligaris, de 2008. Na obra, o protagonista, que vive em Nova York, recebe uma revelação bastante inusitada: a de que seu pai, em outra vida, havia sido ajudante do pintor Sodoma (1477-1549).

O livro, num ritmo de thriller, se desenvolve rápido e nos deixa o tempo todo com o coração na garganta. Afinal, o que interessa ali – e a grande sacada do livro – é a busca da identidade. Surpreendente, no entanto, é a alternação das vozes do narrador: ora através de cartas, diálogos ou trechos do diário do pai.

No ano passado, porém – e para minha surpresa –, me reencontro com o estiloso Antonini em “A Mulher de Vermelho e Branco”. Desta vez, o charmoso psicanalista está em Nova York, se preparando para sair de férias para São Paulo, quando surge em seu consultório Woody Luz, uma misteriosa paciente.

O encontro acaba revelando uma conspiração onde um grupo acusado de práticas terroristas, um crime, um matrimônio em crise e choques culturais  serão o mote para vários mistérios que irão prender o leitor do início ao fim da obra. A referência ao título é um evento que a enigmática Woody Luz está organizando, ao lado dos dois filhos, onde tudo será decorado de vermelho e branco.

Também se junta à trama, a vietnamita LeeLee, uma antiga namorada de Antonini, da época em que viveu em Paris. O enredo tem três momentos – 2003, 2010 e 2011 – e se passa, também, em três cidades – Nova York, São Paulo e Paris. Cheio de ambiguidade e camadas, é elegante e confisca nosso fôlego o tempo todo. Lúdico, trabalha em planos bastante distintos.

Mas são os olhares – ou quem sabe tão somente os pontos de vista – que dão à obra o tom mais relevante. Afinal, se a memória trabalha com a ilusão da realidade – porque no momento em que se elabora, embora conectada ao passado, se dá no presente – estaremos sempre na construção de um olhar que pode, na medida em que relata, nos trair e transitar no terreno da ilusão ou da impostura.

Mas isso não é exatamente o mais importante neste livro de Calligaris que disse, certa vez, que “a ficção preenche espaços onde a realidade não encontra respostas”. Neste “A Mulher de Vermelho e Branco”, tanto narrativa quanto linguagem são múltiplas, multifacetadas. Prova de que tanto vida quanto literatura são ambíguas; e realidade e ficção, de fato, podem caminhar num mesmo fluxo sem, porém, conviver num mesmo terreno, dentro de uma mesma possibilidade.

Ainda encontramos na obra dois terrenos distintos: história e análise. História, neste caso, realidade – embora estejamos no plano da ficção – que conta e organiza um enredo; e análise – o plano psicanalítico –, que, ao mesmo tempo em que analisa as ideias, as organiza.

Mais bonito no trabalho, no entanto, são as divagações de Antonini que acaba por dividir com o leitor suas inseguranças e inquietações. Nesta ordem, o leitor acaba por se tornar uma espécie de paciente do psicanalista.

Como no primeiro romance de Calligaris, “O Conto do Amor”, este “A Mulher de Vermelho e Branco” flerta o tempo todo com a linguagem do cinema. E, tanto um livro quanto o outro, poderiam, tranquilamente e sem muitas alterações, ser transpostos para os ecrãs com grandes possibilidades de sucesso. Afinal, contar histórias é o que Calligaris melhor sabe fazer.

MINHAS SUGESTÕES | 17/02

Freelance Whales – Generator 1st Floor

Freelance Whales é uma banda de indie-pop/folk nascida nas ruas e metrôs de Nova York no final de 2008. Porém, só no fim de 2009 seu trabalho começou a ganhar corpo. O LP “Weathervanes”, primeiro álbum da banda, teve a faixa “The Great Estates” citada pela crítica como “a melhor estreia electro-indie-pop desde que Ben Gibbard descobriu o laptop”. Freelance Whales tem sido comparado com The Postal Service, Sufjan Stevens e Arcade Fire, principalmente pelo uso de instrumentos incomuns. As canções leves e bem reproduzidas são uma verdadeira delícia.

MINHA OPINIÃO – WISLAWA SZYMBORSKA ESCREVE POESIA COMO SE ESTIVESSE CONVERSANDO COM A GENTE EM SUA SALA DE VISITAS

A primeira vez que ouvi falar em Wislawa Szymborska foi em Curitiba, nos anos 1990, quando dividia minha vida entre Brasil e Portugal. A coletânea “Quatro Poetas Poloneses”, lançada em 1994 pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, em parceria com o Consulado Geral da Polônia em Curitiba, trazia, além de Szymborska, poemas de Czeslaw Milosz, Tadeusz Rózewicz e Zbigniew Herbet. Fiquei absolutamente encantado com a obra e, sobretudo, apaixonado pelo trabalho de Szymborska.

Então, em 1996, recebi com alegria a notícia de que a minha poeta polonesa preferida – não que eu conhecesse tantas poetas polonesas assim –  fora agraciada com o Prêmio Nobel de literatura.

A obra de Wislawa Szymborska não é muito extensa. Em cinco décadas de vida literária – sua primeira publicação é de 1952 –, escreveu apenas 12 pequenos livros. Sua grande produção, no entanto, foi para a revista literária Zycie Literackie, na qual atuou entre as décadas de 1950 e 1980, onde escreveu crônicas sobre literatura, jardinagem, culinária e cães. Estas crônicas foram mais tarde reunidas e publicadas em em três volumes.

Aqui no Brasil, no entanto, o trabalho de Wislawa Szymborska é pouquíssimo conhecido. Além da publicação curitibana, a poeta polonesa teve alguns de seus poemas traduzidos por Ana Cristina Cesar nos 1970 e publicados em jornais e revistas literárias. A revista Piauí, há uns anos, também trouxe algum de seus poemas em uma de suas edições. A revista Coyte, de Curitiba, também publicou algo de Szymborska em algum momento. Não muito mais que isso.

No ano passado, porém, a Companhia da Letras lançou “Wislawa Szymborska [Poemas]“, traduzido pela curitibana Regina Przybycien. A obra faz uma pequena amostra do melhor de Szymborska, em escritos que se iniciam em 1957 e vêm até 2002.

O livro é deslumbrante e faz juz ao legado de Wislawa Szymborska. Sua linguagem é informal, coloquial. Escreve poesia como se estivesse conversando com a gente em sua sala de visitas:

Quando pronuncio a palavra Futuro
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser.

A poética de Wislawa também reserva espaço para reflexões mais profundas. Não podemos esquecer o contexto em que a poeta viveu. Seu país, a Polônia, atravessou o século XX em constantes guerras e transformações políticas. Escreve:

Mulher, como você se chama? – Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? – Não sei.
Para que cavou uma toca na terra? – Não sei.
Desde quanto está aqui escondida? – Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? – Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? – Não sei.
De que lado você está? – Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. – Não sei.
Esses são teus filhos? – São.

Mas é em “Impressões do Teatro” que Szymborska me pega pela garganta. Raramente li algo tão poderoso sobre a arte de Dioniso. Depois de afirmar que o mais importante na tragédia é o sexto ato: o ressuscitar dos mortos das cenas de batalha, e discorrer sobre o fenômeno do teatro, encerra assim o poema:

Mas o mais sublime é o baixar da cortina
e o que ainda se avista pela fresta:
aqui numa mão se estende para pegar as flores,
acolá outra apanha a espada caída.
Por fim uma terceira mão, invisível,
cumpre o seu dever:
me aperta a garganta.

“Wislawa Szymborska [Poemas]” é um livro obrigatório. Além do prefácio, também assinado por Regina Przybycien, a seleção dos poemas – talvez porque se apresente em ordem cronológica – traça um panorama bem honesto sobre a produção desta que foi, seguramente, uma das grandes vozes da poesia do século XX.

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* Na verdade, eu li este livro no final do ano passado. E se tivesse escrito esta resenha antes, estaria me referindo a Wislawa Szymborska no presente. Sim, infelizmente, a trovadora polonesa morreu no último 1 de fevereiro, aos 91 anos.

MINHA OPINIÃO – TENNESSEE WILLIAMS, GÊNIO DO REALISMO AMERICANO

Impossível dissociar a biografia de Tennessee Williams de sua obra. Filho de um vendedor ambulante viciado em jogos e alcóolatra, foi preterido pelo pai pelo fato de ser o mais frágil e doente dentre os irmãos.

Sua mãe, com quadros graves de depressão, também cooperou para que o jovem Tom, como era conhecido na infância, se tornasse bastante instrospectivo e se voltasse à escrita na tentativa de fugir deste quadro familiar bastante complicado.

Um dos maiores dramaturgos do século XX, Tenessee Williams (1911-1983), o gênio do realismo americano, além do sucesso no teatro, teve vários de seus textos adaptados para o cinema com grande êxito. No Brasil, foi encenado pela primeira vez por Maria Della Costa que protagonizou “Rosa Tatuada”, em 1956.

Escreveu compulsivamente e sua obra é bastante extensa. Porém, seus textos curtos, embora conhecidos mundialmente, só agora chegam ao Brasil. Obra e graça do editor Edson Manoel de Oliveira Filho, da É Realizações, e do Grupo Tapa, responsáveis pela organização, elaboração e tradução deste “Mister Paradise e Outras Peças em Um Ato”, lançado no ano passado.

O livro traz 13 textos de Tennessee Williams, escritos entre as décadas de 1930 e 1960, e sua leitura é deliciosamente dolorida e obrigatória.

Enquanto lia, fiquei o tempo todo com o desejo de ver estes textos montados. Embora sobressaia, em alguns deles, muito mais a veia literária do que propriamente a dramática, é no terreno do simbólico e do subjetivo que o autor ganha contornos mais expressivos.

Em “Por que você fuma tanto, Lily?”, um dos 13 textos da obra, por exemplo, como bem atenta a pesquisadora Maria Silvia Betti, em sua apresentação do livro, “grande parte das observações alusivas às personagens, nas rubricas desta peça, é direcionada para a composição de elementos que só podem ser caracterizados em cena por meio de recursos de caráter simbólico”.

Se observarmos os caminhos que o teatro contemporâneo tem trilhado ultimamente, talvez até possamos afirmar que Willimas deva ser colocado no panteão dos visionários. Não foi no teatro pós-dramático, ou, como queiram épico, por exemplo, que as rubricas e o subjetivo tomaram frente das questões mais essenciais da cena?

Evidentemente que uma firmação como esta mereceria uma análise mais profunda. De todo modo, Tennessee Williams é importante porque está no centro da reflexão da alteridade. É sempre o outro que interessa mais. O eu ali é pequeno e frágil demasiado. Se visto isoladamente, pode soar melodramático; colocado em xeque, revela camadas. E são elas que desencadeiam o que há de mais interessante na obra do autor.

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