Monthly Archives: fevereiro 2012

MEMÓRIAS: A MÁFIA ITALIANA E CORRENDO DA POLÍCIA EM LONDRES EM 1993

RODOLFO GARCÍA VÁZQUEZ – No meio da nossa temporada em Avignon surgiu um convite para a gente se apresentar em um festival italiano. Iríamos do sul da França para esse festival na Itália, antes de nos apresentarmos em Edimburgo. Mas era a época da operação Mãos Limpas na Itália, e o presidente, diretor, patrocinador do  festival, não sei quem, foi preso. Descobriram que era um mafioso e o festival foi cancelado. Então tivemos que ficar em Londres, por duas ou três semanas, antes de irmos para Edimburgo…

IVAM CABRAL – …Antes de Edimburgo nós passamos por Cambridge.

RGV – O convite para ir a Cambridge já havia sido feito antes, mas ficamos em Londres por um tempo antes de nos apresentarmos lá, não foi?

IC – Sim.

RGV – Ficamos em Londres por causa dessa viagem.

IC – Isso mesmo. Fomos pra Cambridge, nos apresentamos, voltamos a Londres. O convite de Cambridge surgiu depois que foi divulgada a programação de Edimburgo, o teatro em que a gente se apresentaria lá, o Theatre Workshop, deu um destaque para nós. Era muito exótico naquele momento uma companhia brasileira de teatro se apresentar na Grã-Bretanha. Então, quando o pessoal de um festival de Cambridge soube que nós iríamos a Edimburgo, se apressaram em nos convidar para representarmos lá também.

RGV – Foi no Kirin Arts Festival, de Cambridge. Mas eles ficaram muito assustados conosco, muito mesmo. Sentiram medo.

IC – Sim. Era um festival pequeno, ainda que internacional, com grupos de vários países. E o problema é que nós estávamos ali apresentando uma obra “pornográfica”, “A Filosofia na Alcova”. Para eles, era pesada demais. Acho que jamais esquecerão dessa nossa passagem pela cidade. Fizemos duas apresentações e tivemos muito, muito público. Mas as pessoas ficavam muito chocadas com o que viam. Assim, retornamos pra Londres, onde ficamos mais umas semanas, enquanto aguardávamos as apresentações em Edimburgo. Enquanto isso, nossos atores trabalhavam na rua, no Covent Garden, e corriam da polícia, porque era proibido se apresentar nas ruas sem licença. Subvertíamos a ordem das coisas. Imagina um bando de brasileiros, muitos sem falar inglês, se apresentando nas ruas. Nesse momento eu já tinha desistido de minhas pretensões de ser um ator de rua, mas acompanhava meus colegas e dava uma força. E acabou dando certo. Era proibido mas meus colegas driblaram a proibição. Eles precisavam do dinheiro que ganhavam assim, pra sobrevivência, então não podiam escolher, tinham que se arriscar e trabalhar.

 Fonte: “Cia. de Teatro Os Satyros – Um Palco Visceral”, de Alberto Guzik, Coleção Aplauso, Imprensa Oficial do Estado de S. Paulo, 2006

SATYRIANAS VIROU FILME

“Satyrianas – 78 horas em 78 minutos” é um docudrama dirigido pelo americano Jeff Luna, contado sob o ponto de vista de um produtor que vê no evento a possibilidade de realizar um filme de sucesso

Acabei de assistir ao primeiro corte do longa-metragem “Satyrianas – 78 horas em 78 minutos”, produzido pela Muk e Na Laje Filmes. A fita, inspirada no evento “Satyrianas – uma Saudação à Primavera”, capitaneado desde 1991 por nós, dos Satyros, mistura ficção e realidade com muito humor e bastante originalidade.

O evento “Satyrianas – uma Saudação à Primavera”, que em 2007 recebeu o Prêmio Especial da Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA e que faz parte do calendário oficial do Estado de São Paulo, trouxe, em algumas de suas edições, um público superior a 40 mil pessoas. Um dos maiores acontecimentos artísticos da cidade, é organizado anualmente na Praça Roosevelt e em vários teatros e espaços culturais de São Paulo.

“Satyrianas – 78 horas em 78 minutos”, um docudrama dirigido pelo americano Jeff Luna, contado sob o ponto de vista de um produtor que vê no evento a possibilidade de realizar um filme de sucesso, acompanha a trajetória  de uma equipe de filmagem e seus malabarismos para tornar possível o que, num primeiro  momento, parece ser inexequível.

O filme brinca com o real e o fictício e, flertando com a metalinguagem, trabalha em camadas, onde uma história se sobrepõe à outra, lançando o tempo todo dúvidas e certezas, com muito humor e criatividade.

“Satyrianas – 78 horas em 78 minutos”, que tem a participação de nomes expressivos da cena cultural brasileira – Zé Celso Martinez Corrêa, Denise Fraga, Aimar Labaki, Bráulio Mantovanni, Rubens Ewald Filho, Evaldo Mocarzel e Mário Bortolotto, entre outros – tem como narrador a figura carismática de Rodolfo García Vázquez.

O filme, bilíngue – todo falado em português e inglês –, deve percorrer alguns festivais internacionais antes de chegar às telas brasileiras. E, preparem-se, vocês verão um grande filme!

Assista ao trailler:

A FOTO DA SEMANA

 Eu moro no 17º andar de um prédio da rua Augusta, num dos lugares mais áridos da cidade de São Paulo. Tenho, porém, uma vista privilegiada e, quando o clima ajuda, consigo avistar das minhas janelas a serra da Cantareira e o pico do Jaraguá. Tenho em meu apartamento – além da Sofia e do Blangis, dois gatos lindos, lindos – muitas plantas: de avencas, orquídeas e samambaias a pés de café e até uma mangueira – que já deram cafés e mangas, inclusive. Mas neste fevereiro, a alegria veio da pitangueira que, depois de ter nos encantado com umas lindas florezinhas brancas, nos presenteou com seus frutos doces como mel.

UMA EXPERIÊNCIA TEATRAL PLENA

Hoje, os imensos avanços da ciência, em campos como a física, a genética e a química, vêm despertando questionamentos fundamentais nas áreas da filosofia, da ética, do direito e das ciências sociais. No entanto, observa-se uma indiferença inexplicável dos artistas das áreas cênicas em relação a eles. Como esses avanços podem contribuir para o aprimoramento do ator?

Foi com tais questionamentos que nós, dos Satyros, começamos a refletir sobre o papel da arte, especificamente do teatro, no mundo contemporâneo. Afinal, estávamos empenhados em desenvolver uma sistematização que pudesse ancorar o trabalho da companhia. Mas esse “sistema” deveria também organizar os conceitos de produção, não só artística, mas também de viabilização estrutural.

Afinal, qual o papel de uma arte dramática tão primitiva quanto o teatro nestes dias de realidades virtuais? Ser um artista neste nosso estado de coisas é algo complicado. Vivemos um tempo em que as ideologias estão mortas e tudo é relativizado. “O sonho acabou” não só para uma geração, mas para uma forma coletiva de ver o mundo e se relacionar com ele.

Hoje não somos marxistas ou anarquistas, o máximo que podemos ser é politicamente corretos, fiéis a nossa “autenticidade”. Não existe mais um ideal revolucionário único que mova multidões e tudo o que podemos conhecer se restringe a imagens vazias de qualquer sentido além daquele que comanda as nossas existências hoje: gerar lucro.

O Mercado transformou-se em uma entidade soberana, misteriosa, que se coloca acima dos homens. Valores básicos como a noção de compaixão pela vida humana só são levados a sério pelas grandes empresas se e quando estes trouxerem um retorno para a imagem da marca, em um dos conceitos de marketing mais sofisticados nos dias de hoje.

O nosso curto tempo “livre” é explorado pelo mercado, como um dos segmentos mais lucrativos dos tempos modernos. Nossas atividades vão do turismo (hotéis, aviões, guias, Disneylândia e tudo o mais) à leitura (e o mercado editorial), passando pela música (e a poderosa indústria fonográfica), pelo cinema e pelo teatro.

Hollywood é uma das mais bem estruturadas manifestações da indústria cultural. As grandes corporações criam então uma cesta de produtos que reduzem o risco excessivo e protegem o investimento: um longa-metragem para adolescentes americanos entre 13 e 19 anos, outro filme para o nicho de mercado das mulheres independentes, um filme radical para os alternativos.

Essa indústria do entretenimento, ao mesmo tempo que se curva ao Senhor Consumidor e banaliza seu produto a fim de torná-lo acessível a um público maior, cria uma geração de seres humanos anestesiados, incapazes de uma experiência profunda e transformadora. Ela se coloca, simplesmente, acima das questões existenciais banais. Tornamo-nos apenas consumidores a ser encaixados em uma de suas categorias, segundo nossa classe social, nosso nível educacional, nossa faixa etária.

Estamos nós também recebendo rótulos como qualquer produto. E quando as mercadorias nos olham, nós nos tornamos seus objetos de desejo.

A arte só pode ser considerada iluminação da existência e “reduto da esperança”, como nos ensina Adorno, se conseguir manter viva a utopia da Humanidade, trazendo a Verdade com a única perspectiva honesta que nos resta hoje em dia: nossa visão enquanto artista.

Assim, o teatro vivo e pulsante, tal como as outras artes, negará a indústria e o mercado, o consumidor e o lucro. Coabitando com essas dimensões da estrutura social, esse teatro irá buscar sua integridade além delas. A desalienação do artista torna-se, nesse caso, elemento fundamental para a criação de um teatro significativo. Somente a partir do momento em que o ator se percebe como agente social efetivo através da arte, o espectador pode viver uma experiência teatral plena.

UM MUNDO QUE SE RECONSTRÓI NUMA QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Quarta-feira de cinzas, primeiro dia da quaresma, onde em casa, na minha infância, era o único dia do ano que era terminantemente proibido ligar o rádio.

Daí você não tem nada pra fazer, está passeando pela vida, entra na Livraria Cultura, anda de um lado pro outro e… de repente, ele está ali, à sua frente, inteirinho pra você.

Você leva um susto, não esperava encontrá-lo. Afinal, ele é bissexto, aparece só de vez em quando e quando quer. É seletivo demais, não se mistura muito. É recatado e, embora não o conheça pessoalmente, me parece tímido também.

Mas, enfim, é quarta-feira de cinzas – e, juro, não existiria dia mais bonito para isso acontecer –, a cidade está meio parada. Embriagada. Há alguma melancolia no ar e as pessoas têm um jeito diferente no caminhar e no olhar.

Estou vindo de uma reunião importante de trabalho, realizada improvisadamente, num café no Center 3. Como tenho folga e a tarde toda pela frente, caminho meio sem rumo e, juro, não esperava me surpreender com nada.

Mas, antes de tê-lo alcançado, vou à estante de poesia. Verdade, nos últimos tempos tenho me impressionado com poesia. E, afinal, pra quem tinha entrado ali por entrar, ainda encontro “Bertold Brecht – Poemas 1913 – 1956″, da Editora 34, que há tempos eu perseguia. Com medo de perdê-lo, agarro o livro, exemplar único ali.

Me deparo com o Zé Alessandro, meu colega de trabalho em “Cabaret Stravaganza”, também folheando algum livro de poemas. Zé, embora tenha me dito que estava um pouco indisposto – me segreda que acabara de doar sangue – está luminoso. Com incríveis olhos verdes, veste uma camisa polo verde e branca que destaca ainda mais o verdejante de seu olhar. Nos abraçamos e depois de um tempo continuo minha perambulação pela livraria.

Vagueio, manuseio um livro e outro, subo a rampa que liga o térreo ao primeiro andar. É então que, ao chegar na seção de discos, o encontro. Na enorme estante, mesclada de CDs e DVDs, ele está ali, multiplicado em vários exemplares.

É pardo mas tem espessura. Claro que, ao me aproximar, não sei muito bem do que se trata. Mas ele, irreconhecível como só, tem estilo. Percebo que a embalagem parda embala uma outra, entre o azul celeste e o marinho claro. É quando eu o apanho. Meu coração acelera.

Assim, numa quarta-feira de cinzas, primeiro dia da quaresma – onde em casa, na minha infância, era o único dia do ano que era terminantemente proibido ligar o rádio –; dia sagrado para nós, que temos o dever da reflexão e da conversão; dia de pensar em mudanças e de avaliar a efêmera fragilidade da vida; dia onde não se pode lavar a testa; dia de se arrepender de tudo; dia de se sentir culpado pela própria existência, eu leio, em letras discretas: “Zé Miguel Winisnik – Indivisível”.

Na quarta-feira de cinzas, meu mundo se reconstrói. E tudo começa, mais uma vez, a fazer sentido.

FOLIAS TEATRAIS

O lugar, sempre muito tranquilo, calmo e acolhedor, viu seus dias tremerem. Eu disse, lá em cima – lembram-se? –, que o elenco é composto por 21 integrantes!

Então, estamos trabalhando em nosso novo projeto, “Satyros’ Satyricon”, que tem estreia na mostra contemporânea do Festival de Curitiba, no final de março.

Idealizado e dirigido por Rodolfo García Vázquez, escrito por Evaldo Mocarzel, a partir da novela romana de Petrônio (60 d.C.), três eventos compõem esta nova empreitada: uma instalação cênica (“Trincha”), uma peça (“Satyricon”) e uma festa-performance (“Suburra”), que serão apresentados em dias e horários alternados.

Cada um dos eventos pode ser assistido independentemente do outro, sendo ações artísticas singulares. 21 atores compõem o elenco do programa que tem, ainda, como alicerce de pesquisa, as obras “Multidão” e “Império”, de Michael Hardt e Antonio Negri.

Petrônio, em sua criação, faz uma crônica da vida na Roma antiga. Dois amigos disputam o amor de um jovem e, quando um deles é preterido, envolve-se em uma peregrinação onde encontrará tipos e acontecimentos surpreendentes. O projeto pretende traçar um paralelo aos acontecimentos atuais.

Na Roma Antiga, havia o bairro de Suburra, o lugar da devassidão, da prostituição, das putas, dos michês. Pessoas de todas as regiões do Império – Europa, Ásia e África – vinham para a cidade que tinha uma população de mais de um milhão de habitantes – um fato surpreendente para a época. Começou, ali, a primeira ideia do que chamamos de globalização.

Em nosso projeto, o mote central é um traçado desta Roma Antiga com o mundo globalizado atual. Assim, pensamos que Suburra pode ser a Praça Roosevelt, onde arte, devassidão e humanidade caminham de braços dados.

Mas é Carnaval e, porque Deus ajuda quem cedo madruga e o trabalho não espera o sol voltar, nossos atores-devassos-satyricos mergulharam em dias incansáveis de treinamento aqui no meu paraíso, em Parelheiros. O lugar, sempre muito tranquilo, calmo e acolhedor, viu seus dias tremerem. Eu disse lá em cima – lembram-se? –, que o elenco é composto por 21 integrantes!

O mais engraçado, no entanto, foram as ligações e chamadas de amigos que não participariam dos ensaios – sequer integram o elenco da peça – mas que queriam vir pra cá. Resultado: na noite de sábado, meu jardim virou um acampamento – haviam duas barracas montadas. E, dentro de casa, colchões e colchonetes foram espalhados por todos os cômodos para mais de 30 pessoas dormirem aqui.

Eu, que não faço parte do elenco do espetáculo, passei dias incríveis ao lado da Cacilda, a mascote da SP Escola de Teatro. Sim, nossa amada vira-latas também está aqui conosco. E numa alegria contagiante.

Não apareceu samba por aqui. Em alguma situação, tentaram emplacar um CD da Clara Nunes, mas o povo desanimou. Em outro momento, veio a Elza Soares mas em sua fase mais samba rock. Muito indie rock, trip hop, o novo álbum da Céu, Lana Del Rey e até o “21″ da Adele que não saiu dos nossos ouvidos.

Só fiquei preocupado com a pintassilgo que resolveu fazer seu ninho bem na soleira da porta de entrada da casa. E, com tanta agitação, acho que se deprimiu. Tem passado os dias vigiando seu ninho à distância. E ainda não a vi – nem uma única vez sequer –,chocando seus três ovinhos, lindos, lindos.

Mas daqui a pouco vamos embora e a paz e o silêncio voltarão ao mundo dos meus pintassilgos, esquilos, quatis e saguis. É que eles não estão nada acostumados com esse mundo de devassidão, muito menos conhecem Petrônio, Mocarzel e nada sabem da Praça Roosevelt.

COMECEI A LER: “CHARQUE”, DE MARCELO MIRISOLA

Neste romance-biografia, Marcelo Mirisola relata – através do narrador – fatos de sua vida, desde os dias ensolarados no Clube Pinheiros até a fase adulta, em que se vê como o ‘tiozinho do espelho’. O autor procura relatar os momentos vividos sem idealizações ou escapismos e busca misturar passado e presente num fluxo em que o tom confessional e o escárnio possam se fundir.

Editora: Barcarolla
Preço: R$ 38,00 (em média)

COMECEI A LER: “OS DA MINHA RUA”, DE ONDJAKI

Se é certo que as crianças crescem em segredo, como diz Ana Paula Tavares, de vez em quando se comprova que esse segredo espera uns anos para se desvendar amadurecido em literatura. Assim é o livro de estórias do jovem poeta e ficcionista angolano Ondjaki. Em ‘Os da minha rua’ o autor reedifica os da sua casa – da memória, do afeto, da identidade.

Coleção: Ponta de Lança
Editora: Língua Geral
Preço: R$ 32,00 (em média)

MINHA OPINIÃO – CONTARDO CALLIGARIS: A FICÇÃO PREENCHE ESPAÇOS ONDE A REALIDADE NÃO ENCONTRA RESPOSTAS

O psicanalista Carlo Antonini já havia me emocionado em “O Conto do Amor”, o romance de estreia de Contardo Calligaris, de 2008. Na obra, o protagonista, que vive em Nova York, recebe uma revelação bastante inusitada: a de que seu pai, em outra vida, havia sido ajudante do pintor Sodoma (1477-1549).

O livro, num ritmo de thriller, se desenvolve rápido e nos deixa o tempo todo com o coração na garganta. Afinal, o que interessa ali – e a grande sacada do livro – é a busca da identidade. Surpreendente, no entanto, é a alternação das vozes do narrador: ora através de cartas, diálogos ou trechos do diário do pai.

No ano passado, porém – e para minha surpresa –, me reencontro com o estiloso Antonini em “A Mulher de Vermelho e Branco”. Desta vez, o charmoso psicanalista está em Nova York, se preparando para sair de férias para São Paulo, quando surge em seu consultório Woody Luz, uma misteriosa paciente.

O encontro acaba revelando uma conspiração onde um grupo acusado de práticas terroristas, um crime, um matrimônio em crise e choques culturais  serão o mote para vários mistérios que irão prender o leitor do início ao fim da obra. A referência ao título é um evento que a enigmática Woody Luz está organizando, ao lado dos dois filhos, onde tudo será decorado de vermelho e branco.

Também se junta à trama, a vietnamita LeeLee, uma antiga namorada de Antonini, da época em que viveu em Paris. O enredo tem três momentos – 2003, 2010 e 2011 – e se passa, também, em três cidades – Nova York, São Paulo e Paris. Cheio de ambiguidade e camadas, é elegante e confisca nosso fôlego o tempo todo. Lúdico, trabalha em planos bastante distintos.

Mas são os olhares – ou quem sabe tão somente os pontos de vista – que dão à obra o tom mais relevante. Afinal, se a memória trabalha com a ilusão da realidade – porque no momento em que se elabora, embora conectada ao passado, se dá no presente – estaremos sempre na construção de um olhar que pode, na medida em que relata, nos trair e transitar no terreno da ilusão ou da impostura.

Mas isso não é exatamente o mais importante neste livro de Calligaris que disse, certa vez, que “a ficção preenche espaços onde a realidade não encontra respostas”. Neste “A Mulher de Vermelho e Branco”, tanto narrativa quanto linguagem são múltiplas, multifacetadas. Prova de que tanto vida quanto literatura são ambíguas; e realidade e ficção, de fato, podem caminhar num mesmo fluxo sem, porém, conviver num mesmo terreno, dentro de uma mesma possibilidade.

Ainda encontramos na obra dois terrenos distintos: história e análise. História, neste caso, realidade – embora estejamos no plano da ficção – que conta e organiza um enredo; e análise – o plano psicanalítico –, que, ao mesmo tempo em que analisa as ideias, as organiza.

Mais bonito no trabalho, no entanto, são as divagações de Antonini que acaba por dividir com o leitor suas inseguranças e inquietações. Nesta ordem, o leitor acaba por se tornar uma espécie de paciente do psicanalista.

Como no primeiro romance de Calligaris, “O Conto do Amor”, este “A Mulher de Vermelho e Branco” flerta o tempo todo com a linguagem do cinema. E, tanto um livro quanto o outro, poderiam, tranquilamente e sem muitas alterações, ser transpostos para os ecrãs com grandes possibilidades de sucesso. Afinal, contar histórias é o que Calligaris melhor sabe fazer.

NA MÍDIA: OS SATYROS FORMA GRUPO TEEN DE TEATRO

Paulistano Os Satyros cria grupo de atores teen para discutir sexualidade com Teatro

Satyros agora em versão teen

por: Hélio Filho

O grupo de teatro de São Paulo Os Satyros é conhecido por sua liberdade de criação e expressão na hora de contar histórias da vida real de gente adulta em suas peças, cheias das dores e das delícias do mundo, do ser humano. Agora a companhia volta seus olhos para os problemas de gente mais nova, ainda adolescente, e descobre um universo de realidade riquíssimo a ser explorado pelos recursos cênicos. No mês de março o grupo coloca em um de seus dois palcos na Praça Roosevelt, em São Paulo, a montagem de “Na Real”, que reúne histórias reais de meninos e meninas com idade entre 15 e 18 anos.

O texto é uma criação coletiva de pelo menos 15 jovens da rede pública de ensino de São Paulo com coordenação de um dos cabeças do Satyros, Rodolfo García Vázquez. Em conversa com a Junior, Rodolfo se mostra feliz com o resultado do projeto que vem desenvolvendo desde o ano passado e revela que, mesmo não sendo o objetivo, “Na Real” ajudou muitos adolescentes a aceitarem melhor sua orientação sexual.

Rodolfo revela que “estar junto com os outros adolescentes também homossexuais facilita porque eles acabam tendo confiança uns nos outros para se abrir e trazer os problemas das gerações deles. No mundo deles eles precisam parecer fortes perante os outros”. O elenco está em fase de mudança porque o grupo “só trabalha com atores de 15 a 18 anos, então tem que mudar algumas pessoas do elenco que já saíram dessa faixa etária”.

O projeto partiu dos depoimentos das vidas deles mesmos e pretende contar como esses jovens vivem hoje abordando questões como drogas e a aceitação de sua própria sexualidade na adolescência. “Com 14, 15 anos esses meninos já estão em contato com isso, a homossexualidade é tratada de outra forma aqui”, diz o diretor, que acredita que esta “é uma discussão que tem tudo a ver com o Satyros, mas as pessoas não gostam de falar do adolescente”. Segundo ele, “quando você dá voz ele fala de violência, de bullying, de aceitação da sexualidade”.

Vários atores foram se descobrindo homossexuais ao longo do processo e se aceitando dentro do Satyros. Um tema que passa longe do que Rodolfo chama de juventude Malhação. “A imagem do adolescente que você tem hoje em dia é a do adolescente da novela “Malhação”, mas não é a realidade, aquilo é um mentira. Não tem discussões sobre a desestruturação familiar, os casos de alcoolismo do pai, a questão de se impor diante dos colegas através da arma, da droga, é um campo muito complexo e delicado”.

A homossexualidade foi colocada em questão à medida em que esses jovens foram falando. “Queríamos que eles falassem da vida deles.” Ao mesmo tempo, eles podem fazer teatro em um grupo em que  a fragilidade é vista como uma condição natural e não como uma condição de opressão. Rodolfo leva em conta que os meninos gays têm um problema a mais, ou seja, além de todos os problemas dos outros meninos, de ser aceito, que caminho fazer, que carreira seguir, além de tudo isso eles têm o problema de como lidar com a questão sexual na vida deles.

“Se os outros meninos, que são heterossexuais, vão chegar e falar para os pais deles que estão a fim de um a menina, esses jovens gays chegam e dizem que são meninos que eles estão a fim. As histórias são incríveis”, avalia, reconhecendo que a entrada desse elenco jovem deu um fôlego novo ao Satyros. E com tanta gente nova assim pertinho de você já dá para ficar de olho em um futuro talento. “O projeto Na Real é também uma forma de desperta vocações nesse jovens.”

Por uma questão de princípio do Satyros, as cenas não são feitas pelos meninos que viveram as histórias. Um deles, por exemplo, falou para a mãe que era gay, então quem faz a cena é um menino heterossexual. “Isso é para deixar claro que nós estamos no universo do teatro.”

E quem quiser entrar é bem-vindo. Os novos atores são indicações dos próprios meninos que já participaram do projeto, mas o grupo está fazendo também testes nas escolas públicas de São Paulo. Se alguém quiser entrar no projeto pode entrar em contato pelo telefone do Satyros, o (11) 3258-6345. A direção do grupo é de uma transexual, Hester Antunes.

Fonte: Mox Brasil, 17 de fevereiro de 2012

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